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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

THE CHALLENGE FROM CTHULHU CHICK



And then, from the top of the gambrel, we saw it. That singularly hideous thing, mentioned in the immemorial Pnakotic Manuscripts and the blasphemous Book of Eibon, manifested again, this time as a daemonic iridescence festering at the horizon, which indiscribable stench drove us to an ululating madness in less than one minute. The foetid, amorphous creature was one of the eldritch masks of Nyarlathotep, the decadent and swarthy Messenger from Beyond. From that unnamable veil of macabre effulgence of the Outer, we could feel the abnormal and loathsome influence of Azathoth, Yog-Sothoth and Shub-Niggurath's accursed coupling.
   
    It was something no mortal man could behold; those few who resisted its power and rose from the charnel of their own minds, a nameless and antidiluvian comprehension would struck them like a thunderbolt sent from the gibbous moon. I am now one of those chosen; the others fainted or are dead from their own unutterable self-loathing. Now I am the stygian darkness itself, ruling my own private and shunned hyperdimension, all-seeing in a cyclopean palace at the center of this antique plane, served by the squamous and mutant monsters that, aeons ago, long before the mi-go existed, built the towers of Yuggoth.
   
    Such a pity that my old friends from the Miskatonic Valley have now to deal with my sad, comatose husk. Maybe I visit some night, in dreams, if someone in Kingsport dares again to offer them shelter.


Este texto em inglês foi minha resposta ao desafio emhttp://www.reddit.com/r/Lovecraft/comments/fvtbm/quick_challenge_idea_write_one_lovecraftian/ baseado na contagem de palavras lovecraftianas em http://cthulhuchick.com/wordcount-lovecraft-favorite-words/anunciado aqui pela http://www.facebook.com/cthulhuchick

------------------------------- Minha própria tradução para o português:






E então, do topo do telhado, a enxergamos. Aquela coisa singularmente hedionda, mencionada nos imemoriais Manuscritos Pnakóticos e no blasfemo Livro de Eibon, manifestou-se novamente, desta vez como uma iridescência demoníaca infestando o horizonte, cujo fedor indescritível nos levou a uma loucura ululante, em menos de um minuto. A fétida e amorfa criatura era uma das máscaras místicas de Nyarlathotep, o moreno e decadente Mensageiro do Além. Daquele véu inominável de esplendor macabro do Exterior Cósmico, pudemos sentir a influência anormal e repulsiva do acasalamento de Azathoth, Yog-Sothoth e Shub-Niggurath.

    Era algo que nenhum mortal poderia suportar; os poucos que resistem a seu poder e ascendem da câmara mortuária de suas próprias mentes, estes são atingidos como se por um raio vindo da lua gibosa. Eu agora era um desses escolhidos; os outros desmaiaram, ou morreram de um horror impronunciável de si mesmos. Agora eu sou a própria escuridão estígia, governando minha hiperdimensão privativa e reclusa, onisciente num palácio ciclópico no centro deste antigo plano, servido por monstros escamosos e mutantes que, eras atrás, muito antes dos mi-go existiram, construíram as torres de Yuggoth.

    É uma pena que meus velhos amigos do Vale do Miskatonic tenha agora de lidar com meu triste corpo comatoso. Talvez eu os visite alguma noite, em seus sonhos, se alguém em Kingsport ousar vez dar-lhes abrigo mais uma vez.




sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A BUSCA PELA MORTALIDADE




KRONOS PAROU NA BEIRA DO ACOSTAMENTO e entrou no mato.


Ele era Kronos há tanto tempo que não conseguia lembrar do Mistério que o definia; deixara de ser uma sombra errante há tantas eras, que não lembrava mais o nome da casca mortal que o abrigava.  A suprema ironia era a sua prisão.

Na beira da estrada, o carro começou a pingar combustível na pista.

Antes era um ser eterno, porque não era definido, uma entidade que brincava de aninhar-se num corpo humano por alguns anos, no máximo alguns séculos... dando aí aos mortais a impressão da imortalidade... não era mais o caso de Kronos.

Outros carros passaram ao lado daquele que vazava, cada vez mais velozes.

De todos eles, Kronos era o que merecia o nome de maldito. Enquanto todos os Vultos Vulpinos agiam como cucos, tomando o que queriam e batendo suas asas escuras para o nada informe quando se entediavam, Kronos estava preso ao seu corpo.  Há quanto tempo, era difícil precisar: talvez logo depois da extinção dos Neandertais.

A gasolina misturada com álcool se espalhava pela rodovia mal-iluminada, quase uma infestação rápida.

E agora Kronos precisava desesperadamente dormir. Queria um fim para aquilo, um fim para as perspectivas limitadas, para as olheiras cada vez mais escuras.  Ele queria uma luz no fim do túnel, um túnel de luz que o levasse para longe da vida mortal, mesmo que isso significasse a obliteração total, e ele nunca pudesse voltar de verdade ao reino de onde saíra há milênios.

Um carro passou derrapando na estrada.

Depois de ter acendido a centelha do vampirismo em mais uma mulher, em mais uma de suas vítimas, Kronos precisava se enterrar em meio à lama no meio do mato, tentar dormir algum tempo num lugar imundo o ajudava a ter a ilusão de que estava morto.

O motorista, extremamente hábil, conseguiu evitar a colisão com o carro estacionado no acostamento e seguiu viagem.

Não sabia quanto tempo ia passar naquele lodo quase pantanoso, a uns vinte metros da estrada.  Uma chuva recente quase alagou o lugar, era tudo que Kronos queria, a companhia da água e dos vermes famintos. Suas roupas de grife afrontavam a rusticidade do local, e seus sapatos caros estavam encharcados; ele os jogou longe.

Um carro veio vindo a baixa velocidade para os padrões de uma auto-estrada, o motorista fumava distraído, com o braço para fora.

"Nemesyn, sua puta!" gritou Kronos enquanto cavava um buraco no lamaçal. "Se não fosse por você, sua louca, eu não estaria preso a esse mundo podre!" Um cervo levantou a cabeça a uns cem metros de distância, assustado com os berros de alguém que parecia humano, mas não era.

Ao passar próximo do carro parado no acostamento, de onde há alguns minutos saíra um homem bem-vestido, que não passava da roupa de um deus-vampiro desesperado, ou antes sua prisão de tempo e carne, o motorista descuidado terminou seu cigarro e jogou a ponta ainda acesa na estrada.

"Esse mundo POOOOOODRE!!!"

Um grito no mato foi abafado pelo ruído brutal de uma explosão, que incendiou o trecho da rodovia e atingiu os matagais próximos, queimando a carne imortal de um vampiro em sua BUSCA PELA MORTALIDADE ...



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CUCO 333

De Arthur Ferreira Jr.'.
Em honra a Neil Gaiman e escárnio e admiração a Wagner de Holanda







A mocinha no topo do viaduto duvidou de si mesma e tentou não olhar para o sol.  Cuco.  A cabeça quase rodava; a vertigem tentava pôr o pê pela fresta daquela porta oculta em sua mente, mas ela conseguiu trancar a porta a tempo.

Vagões e mais vagões do metrô estavam à sua vista.  Parados, quentando sol como lagartos enfileirados, sem uso até que a obra de mais de dez anos se completasse.  E ela também esperava que algo se completasse: era um processo lento e quase tão doloroso.  Dentro de sua mente, um ninho.

No ninho, uma mente invasora.  O invasor reclamava contra o sol.  Reclamava contra o perigo.  Ele não queria morrer antes de nascer de verdade... antes de tomar o corpo da garota para si.

O invasor estava enganado: quando o ovo chocasse no ninho, ele e a garota seriam uma coisa só.  E aí, seria irreversível.  Cuco.

Às vezes o processo era lento, como no caso da garota na beira do viaduto.  Às vezes uma paixão ou um ódio muito forte aceleravam tudo: o vampiro, o vulto vulpino não precisava beber seu sangue para pôr seus ovos de cuco dentro dela, desde que houvesse um mínimo da centelha e um nome.  Cuco.  Um nome que ressoasse forte dentro da cabeça da garota, mesmo que ela não soubesse disso: nomes como Belial.  Dionísio.  Samyhazah.  Amanozako.  Elegbara. Nyarlathotep.  Laozi.  Flamel.  Melkor.  Saci Sacura.  Abraxas-Sabaoth.  Malkovich.  Tehuti.  Loki.  Flagg.  Sun Wukong.  Mantus.  Angra Mainyu.  Smith.  Vucab Caqix.  Yurugu.

Não importava a origem do nome, se ele soasse muito forte, o vampiro o retirava e, no lugar, no buraco deixado na mente da garota, ele faria seu ninho e colocaria sua semente. Cuco.



A garota subindo na borda do viaduto tinha mais três dias, e na terceira noite ela seria outra pessoa.  Não seria mais uma pessoa, porque uma pessoa tem identidade.  Cuco.  A palavra pessoa vem de persona, aquela máscara teatral que ri ou chora.  Cuco.  A partir da terceira noite, chorar ou rir seriam a mesma coisa.  Ela se alimentaria de risos, lágrimas, suor e sangue.

A garota que caía do viaduto sentiu estar livre por poucos segundos de queda.  Cuco.

Devemos lamentar pelo espetacular nascimento em meio à queda livre?  Não, nunca lamentemos uma bela cena, mesmo que trágica.  Cuco.  Mesmo que hoje uma criatura horrenda, grotesca, com os ossos esfarelados e a pele cheia de cotocos de asas, de penas afiadas, espreite as ruas de um subúrbio da cidade, a filha de Kronos, fugida há três dias do hospital para onde foi levada, antes do necrotério a receber.


Três dias.  Cuco.




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

EXPOSTA


De Arthur Ferreira Jr.'.
Para a voz e a visão de Charlene


Respirava fundo e se sentia exposta.
Entre as duas placas de vidro, transparentes como uma alma que se acha sincera.


Toda uma carga de opostos se dissolvia naquele corredor estreito, onde ela despia suas máscaras e cantava Matanza, bem alto, quase destruindo a fragilidade dos vidro que a separavam das salas onde trabalhava.  Aquele lugar era como o afunilado de uma ampulheta: o tempo parava, e ela gritava.

Mesmo que fosse só na mente que se revoltava do seu próprio silêncio numa das salas, e das palavras vazias na outra.

Aquele lugar era um estado de espírito, era como sua cintura, unindo quadris que se acham livres e torso que se acha escondido demais naquele momento.


Mas não adiantava ficar por ali muito tempo, e ela se movia: o corredor era fugaz e o vidro era translúcido.

Um dia aquele prédio será todo como o corredor: e seu canto e grito e gargalhada dominará o ambiente; e seremos todos mais felizes.





quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A FORTALEZA DO FIRMAMENTO

A Fortaleza do Firmamento se abriu, e os homens que lhe faziam o cerco estacaram, incertos.  O que eles esperavam era arrasar as muralhas da fortaleza logo ao cair da noite; porém, misteriosamente, os portões foram abertos.

     Era uma muralha de arame-farpado dourado, massiva, reluzindo às cores invasivas do meio-dia.  Alguns dos mais afoitos, sem esperar a ordem dos generais, investiram contra os portões escancarados.  A nuvem de poeira se ergueu, o tropel foi ensurdecedor, e as trombetas de guerra soaram: uma vez na investida, o Povo Invasor não mais se detinha.

     Não se detinha, não se deteve, e nunca mais precisou se deter de novo.  As hordas continuaram a invadir a Cidade, e a invadir, a invadir, presas no próprio impulso, e aquele movimento provou-se um meio-dia eterno, a Fortaleza do Firmamento era uma miragem na tessitura do tempo, uma ondulação do calor alucinatório tornada sólida, uma armadilha, uma cilada, um Cavalo de Tróia às avessas.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

O PRINCÍPIO LICANTRÓPICO

escrito por ARTHUR FERREIRA JR.'.



They'll laugh as they watch us fall
The lucky don't care at all
No chance for fate
It's unnatural selection
I want the truth!

Muse, Unnatural Selection


UMA CELA CHEIA DE MULHERES e Aline continuava não se sentindo bem. Acontecera alguma coisa de madrugada, e ela não sabia muito bem porque fui presa, mas suas roupas estavam rasgadas, sujas de sangue e lhe parecia que quase tivera uma overdose de GARRA, ontem.

Começou a choramingar, "ai, mãe, se eu sair daqui, por favor me leva pra rehab, pelamordedeus ... prometo nunca mais ..." só para ter o desespero interrompido por um chute na boca.


Chute de uma das companheiras de cela, uma loira de calça jeans rasgadas e top laranja, ria descaradamente e batia meio nervosa os pés dentro das enormes botas negras, gritando, "Ahh, calaboca, calaboca, sua filhadaputa patricinha!!! Mas que merda, não se tem nem sossego dentro da cadeia?!?" As outras, mais no fundo da cela, riam junto.


Uma mulata de dreadlocks se agachou perto de Aline, "Tá mal, hein, filha. Que foi que cê aprontou, hein? Tá com o quê subindo na cabeça? É a Belknap-14?" Aquele jeito, mistura de carinho e sarcasmo, irritou Aline ainda mais profundamente que o chute da loira biscate. Não era mais efeito da droga, era uma raiva, uma fúria que consome. Aline olhou, com olhos vermelhos e injetados, direto na alma da presidiária, que se assustou com aquilo, e não teve tempo de reagir quando levou um murro fortissimo, que a empurrou direto pro fundo da cela, em cima das outras presas, alavancando o corpo de Aline para cima e deixando-a em pé, disposta a aguentar qualquer briga.

"Porra é essa, sua biscate!" gritou a loira nervosa, "Só quem bate aqui sou eu!" E partiu pra cima da novata com uma navalha que guardava escondida na bota.

O risco sangrento da navalha cortou o rosto de Aline, mas ela mal sentiu, tão furiosamente indignada se sentia. Revidou com outro murro muito forte, muito mais forte do que a forma física diminuta da garota podia supor. As mulheres do fundo da cela podiam jurar que os músculos da novata começavam a aumentar, seus braços mais definidos e era como se um cheiro de bicho houvesse invadido a carceragem.

A navalha da loira caiu, tinindo, no chão fora da cela, e Aline aproveitou a surpresa para agarrar a cabeça da loira com as duas mãos. Duas unhas afiadas, praticamente garras, de seus polegares, feriam o rosto da loira, já arrebentado pelo murro, um hematoma que quase a deformava. Aline segurou firme e bateu uma, duas, três vezes, a cabeça da loira nas grades, até ouvir um barulho de algo se quebrando.


A novata soltou a rival, o corpo da loira escorregou pelo chão deixando o sangue marcando o metal das grades, se não estivesse morta, estava quase. Aline virou-se para as outras e berrou, mal se controlando: "Se alguém tentar uma gracinha, vai ter o mesmo fim dela! O mesmo!" Aline sentia um instinto irracional também berrando dentro dela, algo que a impelia a avançar para cima das mulheres apavoradas ... e morder uma ou duas delas nessa manobra.

Meio preocupante, mas Aline não tinha tempo de pensar nisso. Só o agora importava.

As companheiras de cela haviam sido domadas, mas logo os guardas viriam checar o que era aquela algazarra, e talvez houvesse um cadáver ali para ser encontrado ... O mundo girava ao redor de Aline e tudo parecia devagar ... e ela sabia que devia reagir, devia esconder o cadáver, não, devia DESFAZER o cadáver, sentia a vida ao redor de si, nas companheiras acuadas no fundo da cela, nos insetos rastejando nas paredes, nos pássaros voando fora da cadeia, em si mesmo essa vida pulsava muito com muito mais força, e sentia a vida se esvaindo da loira ferida, jogada no chão.

Aline sabia que dava para ... ajeitar as coisas ... não por piedade, mas por sobrevivência própria. Se a fuga desse errado, não haveria uma acusação de assassinato ... os instintos irracionais se amoldavam em sua mente consciente e às suas prioridades e planejamentos humanos. Sim, ajeitar as coisas.

A garota se abaixou e seus cachos caíram sobre o rosto da loira. Aline enfiou as garras ainda sujas de sangue nos ombros da moribunda, e as companheira de cela não ousavam se aproximar, impressionadas com a linguagem corporal da agressora. "Vamos, sua puta," sussurrou, quase grunhindo, perto da boca da loira, "acorde pra dizer que só levou uma surra, vamos ..."

A cela se encheu de um cheiro de suor. Uma força atroz e irresistível começou a fluir de Aline, e ela não sabia bem o que estava fazendo, mas sabia que tinha de fazer. A força da vida fluía dela para a loira, que abriu os olhos assustada, acordada de uma inconsciência próxima da morte. O que enxergou foi pouco melhor que a morte: os cachos da novata sobre ela, emoldurando um rosto selvagem, de olhos amarelados, as maçãs do rosto cobertas de pelos castanhos, fundindo-se com as costeletas de Aline, tudo isso realçando de modo terrível e ao mesmo tempo sedutor uma boca carnuda, pingando saliva, e cheia de dentes afiados, liberando um hálito forte, salgado, primal, que a loira sentia entrar dentro de si e curar-lhe as feridas na cabeça.

Não muito bem, é claro. Era um traumatismo craniano e a própria força da vida se impunha para curá-lo, mas sem nenhum refinamento. Aline soltou a loira, que ficou balbuciando encostada nas grades sujas de sangue, e levantou-se com firmeza. Quando se virou para as presas, seu cabelo cacheado rodopiando no ar, as feições bestiais já haviam suavizado e mais uma vez parecia apenas uma garota de dezoito anos, presa por ter feito alguma bobagem na noite.

Os guardas vinham vindo, dava para ouvir os passos no corredor, e Aline conseguiu ainda pensar numa aula de filosofia que teve o ano passado. É incrível como lembranças são irracionais, chegam na hora que querem. Aline se lembrou do Princípio Antrópico; que dizia que o universo havia sido criado para o homem, porque, se as constantes da física mudassem um pouco que fossem, as moléculas orgânicas nunca poderiam ter se formado, e nenhuma humanidade existiria para observar o universo.

E agora, Aline sabia que não era só isso: tudo conspirava para que ela vivesse e se desse bem, observasse a aproveitasse o máximo possível do universo. Ela sentia a própria vida e sabia que a vida não se importava com esses humanos miseráveis, mas sim com ela ... e quem sabe com outros como o que ela havia se transformado pela primeira vez, naquela madrugada anterior. Não havia sido por acaso, a droga só a havia despertado, por dentro ela era forte, sempre soube. 


Era a superioridade dos mais fortes. A sobrevivência dos mais aptos.


O Princípio Licantrópico.






ATENÇÃO: este miniconto acontece logo após o conto Ela Só Queria Dançar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ESCOMBROS E UIVOS




Um grande estrondo cortou o ar, e os policiais na base do morro viram uma das maiores casas da comunidade se despedaçar e vários dos destroços rolarem abaixo.


Ao contrário da maioria dos casebres e muquifos com laje batida, aquela casa era o símbolo de poder de um dos traficantes do morro, e o Tenente Miguel Dantas sabia muito bem disso. Só que nenhum dos seus era responsável por aquilo, ninguém sequer havia subido, fora o fato de que ninguém seria louco de estourar uma granada (como parecia ter sido o caso) no covil de um dos maiores traficantes da região. Era mais jogo saquear a casa, conseguir algumas provas, acobertar outras, readquirir algumas das armas do tráfico e ficar com algumas delas para revenda.


O tenente ficou cerca de um minuto olhando a fumaça que se dissipava lá em cima, até que num movimento brusco, comandou seus homens ao ataque. Os policiais invadiram a favela, e ruela após ruela, pensaram que iam trocar tiros com os traficantes, mas a entrada foi surpreendentemente fácil, sem maiores obstáculos. Algumas pessoas, dentro das casas, berravam desesperadas, e era até compreensível, mas alguns dos gritos tinham um tom de desespero ao qual nenhum dos homens da polícia estava realmente acostumado.


Aquela noite estava especialmente quente, em vários sentidos. Três gotas de suor desceram rápidas pela fronte do Tenente Miguel, e reagindo a seus sinais ágeis, os policiais entraram no que restava do casarão. A casa contrastava com a miséria de suas vizinhas, e era como se a destruição em seu interior e nas paredes externas viesse para exercer uma justiça cruel e poética: uma ruína entre vidas arruinadas. Nos arredores, só a Igreja da Libertação de Deus destoava tanto do ambiente.


Dentro, uma carnificina. A coisa era pior do que Dantas pensava. Não só a casa estava semidestruída por explosivos plásticos colocados em dois pontos nas paredes, o que evidenciava um trabalho interno, como todos os capangas do dono do morro estavam mortos. Alguns podiam ter sido atingidos pelos estilhaços e pelo impacto da explosão, mas uns três haviam sido estripados de modo selvagem. E numa sala deixada intacta, estava o corpo seminu do dono, exibindo a garganta dilacerada, o sangue manchando os lençóis caros. Mais tarde, a perícia achou vários traços de esperma e fluidos vaginais por esses lençóis ... mas nenhuma mulher estava entre os mortos. Nem um cabelo de mulher pelo quarto, também; mas haviam pelos de algum animal que a perícia ainda está tentando identificar, alguns deles, estranhamente longos, do comprimento do cabelo longo de uma mulher.


Outra circunstância esquisita era a das drogas e armas espalhadas pela casa. Embora não pudesse dizer exatamente isso quanto às armas, mas a grande quantidade de drogas estocada significava que algum carregamento fora deslocado para a casa do dono, no mínimo um dia antes. Ninguém havia levado nada. Talvez fosse obra de algum justiceiro, mas o Tenente Miguel achava improvável, mesmo um sujeito assim levaria as drogas e armas, ou pelo menos as armas. Miguel falou no celular, pedindo que a inteligência checasse, nos relatos dos informantes, se o dono tinha uma namorada e os detalhes sobre ela.


Enquanto esperava a resposta, uma coisa chamou a atenção do tenente. Havia crack, cocaína, maconha, ecstasy e até LSD estocados naquela casa, mas, perto da janela, havia uma pequena pílula. Largada pelo chão, avermelhada. O policial se abaixou, e com uma luva ergueu a pílula daquela preciosidade. Era de se esperar que houvesse pelo menos algumas daquelas pílulas ali, junto a tanta variedade de outras drogas, mas aquela era a única deixada para trás. Belknap-14.


Os viciados e a gente das ruas a chama de GARRA. O Tenente Miguel a balançou entre os dedos, o vermelho da pílula brilhou à luz das lanternas, e um uivo se fez ouvir lá fora ...



domingo, 18 de setembro de 2011

CHEW ME, CRUSH ME


NA VIRADA DO ANO

Versão em português de Chew Me, Crush Me



Desejos não passavam de caprichos, sentimentos separados das necessidades.
Era o que ela pensava, até que veio o Noite de Ano Novo, mudando tudo.
Era uma festa badalada, e a garota imaginava o que poderia acontecer. Sensações de perigo passaram por sua cabeça, mas seu coração aceitou o desafio. Três doses da GARRA, a nova droga no pedaço, por um bom preço, e sem risco de overdose. Garantia de David. David era o melhor amigo do irmão da moça – o detalhe de que ele havia se tornado um traficante não atrapalhara a confiança entre eles.
Você pode imaginar a música que tocava na festa como qualquer uma que te excite. Não faz diferença nenhuma, porque não mais de dez minutos depois que Monique engoliu as pílulas de Garra, os sons tornaram-se apenas os de sua própria mente.
Sons da floresta e da selva. Água pingando. Pássaros cantando, insetos zumbindo. O uivo de um lobo, à distância. Tudo entre as paredes de uma festa de Ano Novo.
Monique pensou estar ficando louca, mas não ousou comentar nada com ninguém. Logo, os sons em seus ouvidos se juntaram aos odores de todos que dançavam ali. Ela podia sentir o gosto do suor de um casal que se agarrava, no lado oposto da boate. O som e o odor e o gosto juntaram-se a visão, com suas novas perspectivas, e ela pôde enxergar as linhas do tempo, enroscando-se ao redor dos dançarinos, sugerindo pontos de pressão vinda do além, e pontos fracos onde ela poderia atacá-los.
Sim, ela poderia atacá-los, ela precisava atacar, morder, mastigar, transformar-se.
Ela não sabia que 0,01%, ou talvez menos ainda, dos usuários da Garra tinha reações como aquela, e ela fazia parte daquele grupo, empurrada a ele pela quase-overdose.  Nenhum desses fatos a preocuparia: a partir daquele exato momento, em que o relógio mostrava 23:59, nenhuma preocupação, nenhuma responsabilidade, nenhum limite eram de interesse de Monique. Ela era verdadeiramente livre.
Pelo menos, ela sentia-se tão livre, tão faminta e selvagem, que agarrar aquele estranho, que a estava atiçando a noite toda, e levá-lo ao dark room, parecia algo tão óbvio. Ela podia ter feito isso antes. Ele era sua presa, implorando que ela o encurralasse e o devorasse.
Ela o abraçou, e eles se beijaram tão profundamente que o rapaz perdeu o fôlego, enquanto eles se arrastavam até a área do dark room. “Preciso te mastigar,” disse Monique, numa voz frenética. “Você quis dizer que precisa demais me dar, né?” brincou o rapaz. Não teve resposta.
Garras afiadas rasgaram seu corpo, num banho de sangue. Uma boca, antes delicada e leve, agora uma mandíbula exagerada, mastigava a carne do estranho já morto. Logo, a garota lobisomem esmagou seus ossos, e chupou o tutano neles. “Eu realmente precisava disso,” ela pensou. E ela precisava de mais.
Os gritos de alegria e comemoração da festa transformaram-se em gritos de medo e dor, implorando o socorro que nunca veio. E então Monique estava livre para o Ano Novo ...




CHEW ME, CRUSH ME

Publicado para o New Year Contest em http://figment.com/books/18097-Chew-Me-Crush-Me


Desire was nothing more than fancy, a feeling apart from need.
That's what she thought, until New Year's Eve came, and everything changed.
That was a hell of a party, and the girl wondered what could result of it. Feelings of danger passed through her head, but her heart accepted the challenge. Three doses of  TALON, the new drug on the block, at a good price and no overdose risk. David guaranteed that. David was her brother's best friend – the fact that he turned into a pusher didn't messed the trust between them.
You can picture the music running at the party as whatever music excites you. That wouldn't make any difference, because after Monique swallowed the Talon pills, no more than ten minutes passed, and the sounds turned to ones that existed only in her mind.
Sounds of the forest and the jungle. Dripping water. Birds singing, insects buzzing. The howl of a distant wolf. All in the confines of a New Year's Eve party.
Monique thought she was mad, but dared not to tell this to anyone. Soon the sounds in her ears were joined by the smells of everybody in the dancing floor. She could taste the sweat of a couple making out, at the opposite side of the club. To sound and smell and taste, the vision added new perspectives, she could see the lines of time, tangling around the dancing people, suggesting points of pressure from beyond and points of weakness where she could attack them.
Yes, she could attack them, she needed to attack, to bite, to chew, to transform.
She didn't know that 0,01% of Talon users had reactions like that, and that she was one of that group, pulled by a near-overdose. None of these facts concerned her: from that moment – when the clock showed 23:59 PM – no preoccupations, no responsibilities, no limits concerned her. She was truly free.
At least, she felt so free, so hungry and wild, that taking this stranger, who teased her all night, to the dark room, seemed so obvious. She could have done it earlier. He was her prey, calling her to corner him and devour.
She hugged him, and they kissed so deeply the guy lost his breath, while they moved to the dark room area. “I need to crush you,” said Monique in a frantic voice. “You mean you have a crush on me, didn't you?” answered the man. He didn't have a reply.
Talons ripped his body in a shower of blood. A mouth, once delicate and soft, was now an oversized mandible, chewing the flesh of the now-dead stranger. Soon the werewolf girl crushed his bones, and chewed the marrow of them. “I totally need this”, she thought. And she needed more.
The screams of joy and celebration at that party then turned to pained and fearful screams, crying for a help that never came. And then she was free to the New Year ...


PELA ESTRADA ADENTRO




Tem mais de uma hora de relógio que eu tou perdido aqui nessas ruas estreitas, de calçamento antigo, paralelepípedos que dão medo de pisar. Ninguém sabe me dar informação direito, e tô já com o cu no ponto de medo que me assaltem... quinze para a meia-noite...


De repente passa uma menina na rua. Menina, mesmo. Deve ter seus quinze anos, quem sabe. Usa uma capa de chuva de um vermelho desbotado... mas não tá chovendo. É estranho. Parece maluquice. Nem sei porquê tou olhando tanto pra essa menininha.


De repente ela pára o passo, se volta pra mim, estende uma mão magra, mas um pouco bonita (nossa, um esmalte brilhante de tão rubro) e pede:


"Moço, tem um trocado?"


"Não, menina, se eu tivesse algum dinheiro que fosse, já teria tomado um táxi. Você tá com fome, é isso?"


A menina chega mais perto e puxa o capuz vermelho. A rua estava meio escura, mas a lua agora saiu de trás das nuvens... e agora eu noto... não eram unhas esmaltadas, eram garras sujas de sangue, naquela mão meio peluda, como uma mulher com excesso de hormônios...


Ela sorri para mim, uma boca carnuda, dentes afiados, olhos grandes, bem grandes, amarelados, tudo isso emoldurado num rostinho angelical:


"Claro que eu tô com fome!..."

sábado, 17 de setembro de 2011

EU ERA O TRAUMA

De Arthur Ferreira Jr.'.
Dedicado ao Caian Nevoeiro de 2025
Agradecimentos Especiais a Robert W. Chambers, Ambrose Bierce, August Derleth e H. P. Lovecraft 


QUANDO EU TINHA 7 ANOS, me disseram que criança é mais vulnerável a traumas.

Eu nunca tinha ouvido falar de trauma de infância.  Na verdade, eu nem sabia o que era infância direito; a palavra "infância", porque sentir a infância, eram outros quinhentos.  Imagina, então, trauma.  O que era trauma?

Marina tinha 13 anos e sabia o que era trauma; ela me explicou.
Fazendo isso ela deu vida àquela criatura chamada trauma: era pior que bicho-papão, e eu e todas as crianças éramos presas fáceis desse monstro.

O trauma começou a aparecer não só debaixo da cama, como nas esquinas das ruas, nos rostos dos estranhos, dos desconhecidos que minha mãe dizia que eu não devia responder.

O trauma tinha milhares de rostos.  Usava milhões de máscaras diferentes: a moça drogada que sentava no meio-fio; o mendigo que parecia ter mais de dois olhos quando eu olhava para ele de lado; aquele senhor com cara de empresário, que tinha uma mancha avermelhada esquisita na manga do paletó; a camelô que sorria sozinha enquanto guardava as mercadorias; o síndico do prédio que pedia para conversar com meu pai, a sós; a babá de meu irmão mais novo; o padre.

O cachorro do vizinho tinha cheiro de carniça.  O gato que tomava sol na frente da casa passou a se empoleirar no muro, cheio de cacos de vidro, e dali de cima me fitava, sem piscar.  O matinho detrás de casa passou a ser frequentado por todo tipo de inseto e cobra.  Aquele atalho para a escola já não era mais seguro, porque tinha uma cabeça espetada numa espécie de poste pontiagudo, no meio de uma encruzilhada sombria.  As névoas vinham e voltavam nos limites da cidade.

Um menino desconhecido um dia ficou parado na frente do meu colégio, quando todo mundo já tinha ido embora e meus pais estavam atrasados.  Ele usava uma máscara amarelada.  Não era Dia das Bruxas, nem estava perto.  Ele não quis as guloseimas que eu ofereci, nem respondeu quando eu perguntei que travessura ele estava aprontando com aquela máscara.

Na verdade, ele respondeu.  Ele só demorou uns cinco minutos pra isso.

Eu já tinha esquecido da pergunta, quando ele disse:

"Não é uma máscara."




Foi então que eu soube.  Ele estava ali.  Era o Trauma.  Não me lembro do que aconteceu depois.  Acho que acordei no dia seguinte, na minha cama.  Ou foi de madrugada, na cama de meus pais, tremendo de medo?

Eu não sei onde ele se esconde.  Depois daquele dia eu não enxerguei mais as coisas que rastejavam e espreitavam e rondavam e empurravam meus pensamentos e minha coragem para debaixo de um tapete invisível.  Eu estava curado.  O menino da máscara me curou.

Mas ... espere.  Como só pude me lembrar disso agora?


Não era uma máscara.


Não.










Originalmente publicado AQUI em novembro de 2010