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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

LIBERTAÇÃO

Arthur Ferreira Jr.'.



How much deception can you take?
How many lies will you create?
How much longer until you break?
Your mind's about to fall
And they are breaking through
They are breaking through
They are breaking through
Now we're falling, we are losing control

Muse, MK-Ultra



O BURBURINHO VAI AUMENTANDO NA IGREJA, conforme eu vou me espremendo pela multidão. Muita gente vestida de terno e gravata, saias compridas, roupas de mangas e golas mais envergonhadas, até mesmo crianças vestidas desse modo, presas em sua ânsia de brincar naquele lugar sagrado. Já era meu costume usar gravata no dia a dia, apesar de ninguém jamais me ver assim durante a noite – a verdadeira noite, quero dizer, não essa que se sente lá fora, no sereno úmido e na lua redonda. Súbito, o alvoroço da multidão cessa, e ouço retumbar nos alto-falantes uma bateção nervosa feita com os dedos, aquele praxe para checar o áudio e ao mesmo tempo avisar aos devotos que o pastor começará seu sermão. E aquela voz. Vibrante, impetuosa, quase furiosa: “IRMÃOS!”


        E nesse momento, eu sei, com toda certeza e verdade: estou na Igreja da Libertação de Deus.


        O pastor começa a vociferar aleluias e prometer dádivas divinas aos fiéis, castigo aos impuros e, mais importante, a libertação aos aflitos. Contrariando o que eu em parte esperava – já havia estado em algumas igrejas evangélicas, embora, ao entrar ali, eu já soubesse que não se tratava exatamente uma igreja normal de crentes – o pregador não pediu dízimos nem ofertas, não exaltou a necessidade da Igreja de ser sustentada pelos frequentadores, nem ordenou a passagem de saquinho de doações, nem mesmo usou de expedientes visíveis para forçar a culpa na garganta dos presentes, que poderiam se sentir mal se não contribuíssem. Se eu esperasse um local normal de pregação, estranharia também a falta de culpa nas noções do pastor, já que, embora eles raramente falem essa palavra (lidar com a isso é algo largado mais na mão dos católicos), a culpa seja algo de que a maioria desses cristãos buscam se livrar – mas que sempre os perseguem. O pastor não falou de culpa, nem pediu dinheiro. Não fez nada disso, e pareceu aproveitar o tempo que essa omissão lhe dava para exemplificar a libertação dos angustiados: chamou a primeira pessoa a ser liberta.




VAMOS RETORNAR ALGUNS MESES. Minha filha ainda estava viva. Cátia era uma garota esperta, cheia de vida, como canta o clichê. Uma moça que eu gostava de acreditar ser inocente (não no sentido de virgindade, mas sim de pureza de caráter, de ideias), de andar nos trilhos da normalidade. Algo lá no fundo me alertava que essa e outras crenças que eu mantinha não passavam de ilusões. Como sempre, não prestei a atenção a essa sensação, até que fosse muito tarde.
        
        Catuxa (era o apelido que minha mulher lhe dera) começou a sair muito à noite, e voltava estranha, seu comportamento alterado. Discutia com a mãe, me xingava, e depois se trancava no quarto. Eu e minha esposa discutimos sobre a possibilidade da menina estar consumindo drogas. Pois bem, estávamos certos, mas aquilo era só a ponta do iceberg, estávamos apenas… arranhando a carne da verdade.


    
FUI ARRANCADO DO DEVANEIO pelo berro da moça no tablado onde o pastor se movimentava, microfone em punho. Ela chorava, dizia sentir algo dentro de si que a atormentava dia e noite, queixava-se de dores, calafrios, e culpava o diabo. O pastor a agarrou pelos braços, deu cinco sacudidelas bem fortes, gritando nomes estrambóticos, que meses atrás me pareceriam ridículos. Eram palavras arrastadas, diria mesmo guturais, mais surpreendentes e assustadoras que o costumeiro espetáculo do religioso manifestando o pretenso dom de línguas.


        Nada daquilo parecia forjado – pelo contrário, a sensação de verdade, de autenticidade, permeava o ambiente. Não havia nada de hipócrita no comportamento do pastor, e eu tinha total certeza disso. Nos últimos tempos, eu desenvolvera um bom juízo de caráter, estando completamente certo de que aquele homem – chamava-se Pastor Neemias – acreditava piamente em tudo que fazia. Mesmo um tanto chocado com a violência do ritual e com as vociferações de Neemias, o estranho era que eu simpatizava com ele.


        Mas não com a moça escorrendo baba e convulsionando diante do pastor; ela merecia morrer.




A MOÇA SE PARECIA MUITO com minha filha Cátia. Olhos amendoados, grandes, pele bronzeada, cabelos lisos de índia, os contornos jovens de seu corpo tornados evidentes pela roupa um tanto apertada. Minha filha, tão esperta e cheia de vida. Minha filha, escorrendo baba e convulsionando diante de mim, há cinco meses atrás.


        Eu não sabia bem o que fazer. Era uma overdose. Ela não chegara em casa muito bem, trocando pernas, dizendo que enxergava coisas pela casa, reclamava do cheiro forte do lixo que ainda não fora trocado … trancou-se no quarto depois de um breve escândalo, coisa a que já estávamos acostumados.


        O que não estávamos acostumados era ao silêncio que se formou na casa, com ela dentro do quarto: normalmente, ela colocaria o som a altos brados, ou então resmungaria coisas estranhas que eram ouvidas no corredor. Forcei a porta, agoniado, e lá estava ela, num estado muito parecido com o da moça sendo curada pelo pastor …




O PASTOR SACUDIA OS BRAÇOS da moça, e num momento julguei enxergar que as unhas do pastor haviam se tornado garras afiadas, e rasgado a carne da menina convulsa. Mas essa impressão não durou menos de quatro segundos; talvez tenha mesmo acontecido.


        A moça praticamente desmaiou e foi retirada do palanque por um assistente. Quando passou perto de mim, carregada, eu enxerguei uma marca – praticamente um desenho – um arranhão profundo em seu braço, e ao vê-lo a sensação de que a moça deveria morrer aumentou.


        Essas ideias estranhas, esses impulsos mórbidos e imperativos, me perseguiram nos últimos meses. Não sei mais o que fazer, e vim aqui na igreja buscar alívio. Será que vim ao lugar certo?






CÁTIA ESTAVA INTERNADA num hospital, recuperando-se da overdose da qual sobreviveu. Foi nessa época que ouvi falar pela primeira vez da Igreja da Libertação de Deus, pela boca de uma prima.


        Ela falava dos milagres realizados pelos Pastores Simão e Neemias, que traziam alívio a endemoniados e viciados. E haviam vários viciados naquela comunidade onde ficava a sede da igreja. Os pastores chegaram até a atrair a atenção dos traficantes da região, mas depois de uma conversa a sós – assim corria o boato – o “dono” do morro deixou de interferir com a Igreja. Talvez tenha notado que essas “curas” não afetavam seu comércio; na verdade, um número cada vez maior de consumidores surgia, e as curas também aumentavam.


        Essa última opinião, cheirando a teoria da conspiração, emitida pelo sogro de meu vizinho, não era ouvida nem considerada pelos simpatizantes e defensores da Igreja da Libertação. Meu vizinho mesmo dizia que, no mínimo, a Igreja deveria ter algum valor ou caráter, porque não via as explorações que enxergava em outras igrejas do mesmo gênero. O sogro, seu Raimundo, argumentava que nem toda igreja evangélica explorava, que a Igreja da Libertação de Deus nem mesmo era evangélica de verdade, e que achava que as pessoas que iam lá sofriam uma lavagem cerebral.


        Só essa palavrinha desmoronava todo o crédito que eu poderia dar a seu Raimundo. Todos caíam na gargalhada, na rodinha de cerveja em frente ao botequim onde eu me reunia com os amigos, e a coisa ficava por aí, seu Raimundo envergonhado e seu genro acabava balançando a cabeça numa ironia muda, virava mais um copo e todos o imitavam, e o assunto mudava para outro qualquer.


        Eu estava frequentando demais aquele botequim, porque o problema de minha filha me angustiava sobremaneira. Os amigos já evitavam tocar nessa questão, e pouco a pouco eu já ia lá sem os amigos – afogava as mágoas na cachaça, sozinho, em plena madrugada, quando a insônia e os pensamentos recorrentes não me deixavam dormir.


        Uma culpa, principalmente, não me deixava dormir. Aquilo só podia ser culpa minha, porque minha mulher era tão cuidadosa, e eu, tão distraído. Eu deveria ter sido o pulso firme dentro da casa, ser mais homem, mais pai de família, enfim. Eu estava com quarenta e um anos, mas me sentia uma criança diante daquilo tudo, isso sim.


        Queria me livrar da culpa; me libertar.






O PASTOR NEEMIAS SE RETIROU do palanque e era a vez do Pastor Simão falar. A voz de Simão era bem mais suave, mais melíflua, quase tentadora. O pastor se enchia de piedade pelos escravos do mundo, dizia. Satanás tinha este mundo preso em suas garras, repetia pela terceira vez. “Irmão,” continuava o pastor de traços magros e tez pálida, olhos muito vívidos mirando a congregação, “sim, estou falando com você que veio hoje pela primeira vez. Não sei quem você é, mas não está mais sozinho. Porque o diabo – o diabo… – o diabo o tinha em suas garras e o afastava do caminho certo, mas você conseguiu fugir dele. Está aqui agora como os outros pintinhos, aninhados pelas asas da galinha, salmo 91, versículo 4. Ficai conosco, irmão! Essa angústia que sentires a será exterminada pela espada do anjo vingador!”


        Quando se empolgava, Pastor Simão misturava os tempos verbais e as citações bíblicas, mas ninguém ali estava ligando para isso – só a possibilidade, o aceno da libertação importava. Na verdade, ninguém se importava com a espada do anjo vingador, por mais próxima que ela na verdade estivesse…


        O que eles queriam era o êxtase, a glória do Senhor, e isso, ou algum sucedâneo ainda mais viciante que o sentido em outras igrejas, era o que Simão ia lhes dar. Depois de algum tempo falando, e se enrolando, Pastor Simão começava a jorrar bênçãos sobre a assistência, falando em línguas sussurrantes, quase orientais e pseudo-semíticas, um sussurro híbrido, tão alto que era ouvido de um canto a outro da igreja.


        Eu não me refiro só à amplificação do alto-falante. Havia algo naqueles sibilos que preenchia a sala, hipnotizava, e as pessoas começavam a também gritar em línguas, dançar frenéticas, rodopiar, pôr as mãos nas cabeças umas das outras, em nome do Senhor… a princípio não parecia nada muito diferente do que eu poderia presenciar em outros lugares assim, mas se numa outra ocasião eu ria daquilo tudo, agora me sentia tocado. A glória me invadia, e queria expulsar a angústia em meu coração.
    
        Não era só isso que era diferente de outras igrejas – enquanto eu dançava ritmado em meio ao povo, vi várias pessoas se beijando compulsivamente, e pessoas que eu pensava que eram estranhas umas às outras. Outras pessoas não eram tão estranhas assim – logo percebi, quando vi duas irmãs se beijando num abraço nada fraterno.


        Mas era a glória de Deus, a libertação de Deus. Nada de culpa, nada que me faria lembrar de minha filha… oh, não, mas uma das duas irmãs se parecia tanto que aquela amiga de Cátia que me procurou um dia…






CHAMAVA-SE VANESSA. Lábios finos, um sorriso tímido, cabelos cacheados e castanhos, pálida, baixinha e de óculos, mas muito graciosa. Atenciosa. Depois de um tempo ela largou os óculos e passou a usar lentes de contato de cores estranhas. Às vezes essas lentes brilhavam no escuro, era o que eu percebia quando ela vinha pedir notícias de minha filha, vinda da rua em sua iluminação defeituosa. Parecia estar se vestindo do mesmo jeito que minha filha, mas seu comportamento não era tão preocupante.


        Eu me preocupava mais com essas vindas quase à meia-noite, o bairro estava se tornando perigoso naquelas noites, talvez fosse a proximidade da favela, mas por outro lado, aqueles assassinatos que apareciam nos noticiários não pareciam coisa dos traficantes. Os especialistas no jornal diziam ser latrocínios perpetrados por alguma gangue, e não queima de arquivo ou coisa do tipo.


        A última vez que vi Vanessa não havia muito escuro lá fora, porque a lua estava bem cheia no céu. Dava para enxergar um halo bem forte ao redor do satélite, suas cores estavam quase psicodélicas, quando as formas e o rosto da menina ficaram visíveis diante da janela do segundo andar – eu estava arrumando meu armário e quase tomei um susto quando ouvi o “psiu” da amiga de minha filha.


        “Vanessa! Que diabo é que está fazendo aí na árvore?”


        “Tio,” falou a mocinha a coisa de um metro de distância, “o senhor precisa me ajudar. Deixa eu entrar, escancara a janela pra mim.”


        Minha mulher tinha saído naquela noite, visitando uma amiga. Foi uma coisa que de imediato me causou vergonha, mas estar daquele jeito com uma jovem assim, ainda mais amiga da minha filha, me excitou um pouco. Abri a janela.


        O que se seguiu foi estranho. 


        Ela pulou da árvore para dentro do quarto e caiu perfeitamente em pé, a cinco centímetros de mim; seus olhos brilhavam e aquela minha excitação que havia sido tingida de vergonha, se converteu em medo do desconhecido … até que percebi que os olhos brilhavam pela incidência da luz da lua sobre suas lágrimas: ela estivera chorando!


        “Tio, ela está morrendo… e eu não pude fazer nada pra evitar!” Desesperada (assim parecia), me abraçou com força. Não tive jeito de reagir ou de a recusar.


        A pele dela era quente, o abraço, forte. Mais forte do que deveria ser o abraço de uma menina daquele tamanho. E ela parecia tão cheia de vida … a minha excitação voltou, superando a pena e a confusão. E ela reagiu, rápida, à minha excitação. Já estava agarrando meu torso, o apertou com mais força e me beijou na boca.


        Sua saliva era quente e de um gosto bem mais forte do que qualquer boca que já beijei; sua carne, deliciosa ao toque e seu cheiro de mulher, que ficava mais forte, avassalador. Eu poderia me perder naquelas sensações. Mas algo me ocorreu e segurei-lhe os braços, impedindo que aquilo continuasse: “Que é isso? E quem está morrendo, Vanessa?”


        “Cátia. Me perdoe… eu… eu fiz besteira...” mas balançou a cabeça como se estivesse dizendo bobagens, e consertou: “quer dizer, eu acho que ela está muito mal, eu sonhei com isso.”


        “Não quer dizer nada. Ela está no hospital, e bem. Senão eu teria sido avisado. E, Vanessa…”


        “Mas eu não suporto. E será que fiz errado em passar aqui? Preciso de apoio. E também, não consigo me concentrar com…” interrompeu o próprio discurso de novo. “Me traz um copo d'água? Não tou muito bem.”


        Assenti, meio aliviado de ter alguns instantes para avaliar a situação, enquanto descia para pegar a água. “Traga dois copos!” gritou ela do quarto enquanto eu descia as escadas.


        Peguei logo uma jarra e subi de volta, rápido; nem consegui, também, me concentrar no que estava de fato acontecendo. Era como se eu fosse um hiperativo.


        “Minha família é espírita,” ela foi explicando assim que entrei de volta no quarto, “e eles dizem que beber água fluidificada faz bem quando a gente está assim, abalada. Então vamos nos concentrar um pouquinho, eu não quero rezar, nem sei rezar direito, dizem que a água se energiza e se bebemos, faz bem, acalma, sei lá.”


        Achava aquilo uma tolice, mas concordei por talvez poder acalmá-la. Por outro lado, a situação era meio… broxante, para usar a palavra exata. Eu havia estado extremamente excitado poucos minutos atrás e agora ia “fluidificar” água junto com aquela garota.


        Ficamos um tempo parados, sentados no chão do quarto, a luz da lua caindo sobre o aposento mergulhado em penumbra. Até fechei os olhos, entrando na onda dela, para melhor me “concentrar”. Logo depois que fiz isso, ela disse, “Vamos beber, então.”


        Tomei a bebida a goles sôfregos, queria acabar logo com aquilo. Ela também bebeu o copo dela bem rápido, e não contou conversa, me agarrando de novo. Ela não saiba o que queria, afinal de contas!


        Nos abraçamos e ela ficou por cima de mim, ávida, feroz. Acabamos tirando a roupa e começamos a fazer sexo ali mesmo, no chão. Parecia tudo muito bem (eu havia esquecido completamente a existência de minha mulher e de minha filha hospitalada), o cheiro dela invadia todo o quarto, era como se fosse uma nuvem invisível me afetando, me atiçando… até que ela começou a se empolgar demais.


        Os dois sentados um diante do outro, as pernas em tesoura na penetração, ela arranhava minhas costas com uma força além de qualquer outra mulher que havia me arranhado antes. Era dolorido e as unhas pareciam mais garras que outra coisa. Além disso, eu estava começando a me sentir esquisito: me mexia dentro dela com uma velocidade anormal, como se fosse um animal selvagem, e minha vista começava a … borbulhar na minha frente, distorcendo o que eu enxergava. Os cheiros começavam a ficar mais fortes, além do cheiro dela, eu sentia o cheiro de madeira da chuva da tarde, que havia subido pelas casas há várias horas; o cheiro do perfume de minha mulher, que estava bem longe dela, mas ficou parada pondo perfume na porta do meu quarto, enquanto conversava comigo, umas duas horas antes; o cheiro de comida vindo da geladeira fechada. O cheiro da luz da lua entrando no quarto. O cheiro de minha mente estalando, o cheiro da fome de Vanessa.


        Ela me derrubou no chão, grunhindo: “Sente o sangue ferver? Sente tudo mais forte? MAIS VIVO?” Suas formas pareciam animalescas, diante de mim. O que eu enxergava era uma mulher e um bicho ao mesmo tempo, sua vagina era quente e apertada, apertava demais, ela tinha escamas por todo o corpo e seus olhos brilhavam com uma luz muito amarela, vívida. A língua (parecia bífida) vibrava para fora da boca, que se escancarava ao gritar, gemer, num ângulo impossível para uma mandíbula humana; como se ela fosse uma cobra prestes a engolir um touro.


        E eu me sentia sendo engolido.


        Logo, isso se provou literal. Ela avançou sobre meu ombro, me segurando com toda força, e eu não conseguia reagir, ainda preso sob ela e entre suas pernas. Me sentia como se estivesse drogado. E ela me mordeu o ombro; não só mordeu, mastigou e arrancou pedaços do meu ombro. Senti-me devorado vivo e desfaleci de dor, não sem antes as alucinações piorarem e eu enxergar Vanessa tornando-se uma serpente gigante, enroscando-se em volta de meu corpo, me estrangulando…


        Acordei no chão, com uma dor de cabeça incrível. Já era de manhã e a luz do sol entrava, iluminando tudo de modo tênue. A porta do quarto estava fechada e dava para enxergar a chave virada nela, deixando-a trancada. Droga, a minha mulher… onde será que ela havia dormido?


        Com a cabeça rodando, examinei meu corpo e vi que havia, sim, uma marca no ombro – mas podia ser muito bem uma marca de uma queda, eu poderia ter caído da cama … parecia uma mordida, e ao mesmo tempo não parecia. O ferimento ardia e eu sentia quase como se ele estivesse se fechando.




ME PEGUEI BEIJANDO A MOÇA que parecia Vanessa. Bom, agora eu não tinha satisfações para dar à minha mulher: ela havia me deixado, depois da morte de Cátia. Sim, porque Cátia havia, sim, morrido no hospital naquela mesma noite; e minha esposa havia esmurrado a porta do nosso quarto, tentando me avisar, mas eu juro que não ouvi nada, naquele sonho estranho com Vanessa.


        O salão havia se convertido em uma quase orgia. Ainda bem que a igreja não era do tipo de portas abertas, aceitando os fiéis ou curiosos que passam pela rua. Não, a igreja – aquela filial da igreja – ficava num antigo cinema, mas a assembleia acontecia mais para dentro, na sala de cinema propriamente dita. Não vi cenas de sexo propriamente dito, mas era tudo como uma bacanália, em vez de bacanal: uma celebração dionisíaca, vários cantavam hinos em meio à liberação.


        Então, de maneira quase orquestrada, simultânea, todos começaram a louvar a Deus num hino, pulando e erguendo os braços. O pastor Neemias reapareceu no palco e voltou a bradar em línguas … só que, desta vez – e eu já estava bastante alto, como se estivesse alcoolizado, e olha que fazia uns dois dias que não bebia – “entendi” o que ele gritava, era também um hino, mais ou menos assim (aquelas palavras ficaram gravadas a fogo em minha mente, e era só em minha própria mente que as compreendia):


        Ave, Senhor Tsathoggua, Pai da Noite!
        Glória, ó Antigo, Primogênito da Entidade Exterior!
        Salve, Aquele Que Já Era Antigo Além do Imemorável
        Quando as Estrelas Geraram o Grande Cthulhu!
        Todo Poder ao Rastejante Ancestral, sobre os lugares podres de Mu!
        Iä! Iä! G'noth-ykagga-ha!
        Iä, Iä, Tsathoggua! 



        Depois que pronunciou aquelas frases (algumas das palavras eram percebidas como pura insensatez, como esse “Tsathoggua”), os fiéis foram se dispersando em fileiras mais ou menos organizadas, saindo do salão de assembleia e dirigindo-se às saídas; mas nem todos.


        Fiquei meio sem jeito com tudo aquilo (sei que andava mal da cabeça e do coração, nos últimos tempos, mas aquilo superava muito, em estranheza, o que eu esperava) e já ia dando mostras de também ir embora, sem chegar a falar de fato com ninguém, quando senti uma mão no meu ombro.






        Era o Pastor Simão.


        Ele tinha um pouco de mau hálito, disfarçado pelo uso de balas de canela (dava para perceber com nitidez). “Você parece não pertencer ao rebanho, irmão” disse o pastor.


        “É a primeira vez que venho aqui, e…”


        Ele riu. “Não era disso que eu estava falando.” Seus olhos brilhavam, intensos, meio que me sondando. Ficou alguns segundos esperando que eu disse algo, talvez, e completou: “O Pastor Neemias quer falar com você.”


        Como assim? Não estava entendendo nada, será que alguém do bar falara dos problemas com esse pastor? Só fiz assentir e Neemias fez um gesto para que o seguisse. No meio do caminho, algumas pessoas desativavam os aparelhos de som, enquanto outras, bem menos numerosas, se encaminhavam para a parte ainda mais interna da igreja.


        E foi para lá que nos dirigimos. Chegando numa sala mais ou menos ampla, embora bem menor que o salão, cheia de cadeiras e (o que era estranho para uma igreja) divãs, ou sofás de reclinar, parecidos com aqueles dos filmes romanos. Havia ali também uma espécie de púlpito.


        E, recostado sobre ele, de jeito quase displicente, o Pastor Neemias, cofiando a barba grisalha. Era um homem robusto, apesar da idade talvez já acima da casa dos cinquenta.


        “De onde veio, você, irmão?” perguntou ele, ríspido, entrando em choque com a simpatia que senti por ele, que viera ali quase disposto a contar tudo dos últimos meses, como se ali fosse um confessionário católico. Da morte da minha filha, dos sonhos estranhos, das ideias despropositadas, da fim do meu casamento, do sumiço de Vanessa. Talvez eu viera no lugar errado. Talvez não.


        “Me recomendaram esta igreja, eu ando meio angustiado, e…”


        “Corta essa conversa de crente. Dá pra sentir o seu cheiro, você achava que não?” Despegou-se do púlpito e veio avançando na minha direção.


        “Do que é que você está falando?” Apreensivo, olhei para os lados: eu, os dois pastores e mais umas três pessoas, incluindo aí duas mulheres. Vestidos do jeito padrão para um grupo de crentes, mas com uma postura corporal totalmente distinta. Diabos, um deles parecia estar mostrando os dentes para mim!


        Aquilo, mais Neemias se aproximando como se fosse fazer círculos ao meu redor, me despertou uma espécie de reação automática. Minha postura ficou um pouco mais curvada, os membros, tensos, pronto para responder com violência, se fosse necessário.


        “Isso aqui é nosso território,” sussurrou estranhamente aquele que se dizia Pastor Simão. “Não acha que fez mal ir entrando sem ter avisado antes?”


        “Não faço ideia do que estão falando,” repeti. “Para mim, isto aqui era apenas uma igreja… normal.” Esta última palavra demorou um pouco para sair; eu mesmo sabia que estava mentindo, nunca ouvira falar da Igreja da Libertação de Deus como igual às outras. Apesar de nunca ter me chegado notícia de orgias, antes.


        A cara que Neemias fazia era de raiva e confusão. E eu, se não estava totalmente assustado, estava muito apreensivo. “Que é isso de território?” perguntei, dando um passo em direção à porta por onde havia entrado.


        Mas fui impedido de me movimentar com mais liberdade, porque o homem que mostrava os dentes para mim, nos cantos da sala, avançou também e cortou minha saída. Talvez tivesse agido contra mim, se uma das mulheres não segurasse seu pulso, vindo rápida na direção dele, e falasse alto, para todos:


        “Esperem! Ele pode ser um apagado… um novato que não sabe o que é. A Garra anda provocando muitos desses, ouvi dizer.”


        “Mas o cheiro dele é diferente,” interrompeu Simão. “Tem alguma coisa diferente nele, é como se fosse um licantropo há anos!” Licantropo? Aquela palavra estranha me deixou mais confuso, onde já a houvia encontrado…?


        “Não importa” falou o homem de dentes expostos – o cheiro dele também era forte, como de um cachorro que não tomava banho; olhando também para a mulher que havia intercedido, percebi que ela tinha um cheiro insinuante e forte, e que, na verdade, a linguagem corporal de todos eles se parecia com a de animais. “Se é um novato, vai ter que se submeter a nós.”


        Submeter? Eu começava a ficar ainda mais nervoso.


        “Calma,” interveio Neemias, agora um pouco menos tenso. “Vamos lá, irmão. Faça o que veio fazer aqui, ou o que disse que veio fazer aqui. Conte seus problemas.”


        Os outros relaxaram um pouco a postura de alarma, era como se Neemias fosse o chefe deles, incondicional. Então desabafei, contei tudo que esperava contar, dos sonhos, da minha filha, de Vanessa (esquisito que quando mencionei esse nome e o incidente, alguns deles ergueram as sobrancelhas), das alucinações… nesse ponto, perguntei, “Quem é Tsathoggua?”


        “Ah, irmão!” reagiu Neemias. “Então você é digno de saber a verdade do nome de nossa igreja. É um duplo sentido, sabe… a Libertação é a Libertação de Deus, você veio aqui se libertar do próprio Deus, porque o Deus que aqui cultuamos não é esse deus fraco que se faz de forte, que os homens conhecem mal e por medo, o procuram; veneramos um deus como nós. Como eu e você. Ele é um guia, Tsathoggua. Um ser amorfo, divino, como você e eu.”


        “Como eu e você?!?”


        “Sim, mas acho que uma imagem vale mais que mil palavras. Chegue aqui, vamos até o porão. Vai ter que confiar em mim, e sabe que não tem muita escolha. Mas não te desejo mal, e você sabe disso, também. Não é?” De novo, aquela aura de simpatia e confiança, mesmo no meio de estranhas conversas e algaravias em línguas desconhecidas.






       
DESCEMOS AS ESCADAS SUJAS que se escondiam atrás de uma porta discreta. Eu ia ao lado de Neemias, enquanto Simão e os outros (que disseram se chamar Teodoro, Liziane e Marluce) vinham logo atrás. Por um instante pensei que ia encontrar um tipo de calabouço iluminado por tochas, ou então um local ritualizado, cheio de velas, mas não era nada disso; no caminho alguém apertou uma tecla e luzes fluorescentes encheram o pavimento inferior. Foi então, ainda no alto da escada, que a vi.


        Aquela coisa. O cheiro dela era ainda mais forte que o dos outros, extremamente familiar e ao mesmo tempo surpreendente. Uma mulher (via-se pelo contorno dos seios, de bicos muito pontudos, e pelos quadris arredondados) coberta de escamas muito grossas, negras… e a cabeça era totalmente ofídia, com um capelo de naja, no lugar dos cabelos. Ela estava nua, acorrentada a uma das paredes daquele… deveria chamar de dormitório? Estava cheio de camas de campanha.


        Ao nos ver, o monstro começou a se debater e berrar. “A porta lá em cima está bem fechada?” perguntou Simão a uma das mulheres, que assentiu afirmativa.


        “O… o que é isso? Será que estou sonhando, de novo?”


        Neemias foi me empurrando pelas escadas e falou, na voz uma seriedade forçada contrastando com o rosto alegre e excitado: “Não a reconhece? É ela. Aquela que matou sua filha.”


        “Matou minha filha, como assim? Minha filha morreu de infecção hospitalar!”


        “Não exatamente. Sua filha só estava naquelas condições, para começar, por causa de… Vanessa.” Aquela era Vanessa? Percebi então como aquele ser se parecia com as formas do corpo da moça que eu só havia visto nua uma vez, em sonho; e que parecia não muito sonho, agora; e foi então que me lembrei de como o sonho terminou…


        “Nós sabíamos da sua história, indiretamente,” falou Simão, mais uma vez num sussurro, mais um sibilo agora, “por ela, que era parte do bando. Agora está aí, de castigo. Foi ela que apresentou a droga Garra para sua filha; foi ela que tentou reanimar sua filha no hospital, e falhou; foi ela que, depois de falhar, foi se consolar com você, e acabou fazendo de você… um aperitivo. Já fez isso antes, matou um tal Caio, melhor amigo dela… Mas ela não imaginava que ao… temperar você, acabasse te despertando.”


        “Bando? Tempero?” Então, me veio o choque. Ela havia me drogado, posto algo na água, enquanto eu me concentrava, naquela noite terrível. “Mas porque ela fez isso???” perguntei desesperado.


        “Porque ela gosta do tempero da droga na carne humana… a GARRA que desperta ALGO naqueles destinados, a Garra na carne humana… coisa que você também vai aprender a gostar,” respondeu exultante Neemias, me segurando pelo braço, “porque você é um de nós!”


        A coisa serpentina diante de nós começou a se debater quando Neemias se transformou, seu agarrão no meu braço tornando-se cinco garras me prendendo com força. Era um monstro peludo, que ao crescer rasgou o paletó de Neemias, postura curvada e cabeça como a de um gigantesco chacal ou lobo.


        “ENTÃO,” grunhiu Neemias, “JÁ SABE AGORA O QUE VOCÊ É?”


        Os sonhos. Os sonhos que eu havia tido naqueles últimos meses, me vieram como um baque sobre a cabeça. A vontade de matar era genuína, porque eu era um monstro. Não sabia se tinha mesmo estripado inocentes daquela forma que me lembrava, nos sonhos, mas era tudo vividamente real. Eu corria pelas ruas da cidade, livre, caçava e matava e devorava.


        Os outros assumiam formas animalescas menos evidentes, mas mesmo assim assustadoras: Simão exibia escamas de um mosqueado verde-amarelado, e olhos tão serpentinos quanto o de Vanessa acorrentada; Teodoro tinha os braços muito peludos e dentes muito afiados, e estava barbado como não era poucos minutos antes; Marluce exibia olhos azuis, de um azul que não era humano, e garras como as de um gato; enquanto Liziane era de todos a mais assustadora, com a pele viscosa coberta de ventosas, os braços flexíveis como tentáculos.


        E o mais estranho, para mim, era que eu sentia muito medo, mas o medo não me dominava. Era como se eu já estivesse acostumado com aquilo – e com todas aquelas metamorfoses, eu seria o único humano ali no porão… se não fosse a reação que me possuiu: minha pele coçava como se estivesse alérgica a alguma coisa no ar, e aquilo piorou chegando a arder, a queimar; o tempo parecia parar enquanto aqueles animais me rodeavam e eu me aproximava da acorrentada, presa a grilhões de cor muito prateada.


        Então vieram as alucinações – os cheiros muito mais fortes, a umidade do ar parecia mais espessa, e se mexer, reagindo aos movimentos do bando de monstros; haviam zumbidos, silvos e estalos por toda parte; um ruído surdo preenchia minha cabeça… e naquele instante interminável, vi a luminescência, aquele halo hediondo e psicodélico que havia enxergado na lua, na noite em que Vanessa me havia visitado.


        O halo envolvia as correntes de prata que prendiam a moça, monstro, parente, fêmea, consorte, estranha e familiar, favorita e odiada, prostituta e santa, deusa monstro. E eu sabia que as devia tocar: para tocar na pele da minha deusa e amante, devia estraçalhar os grilhões… era a mensagem que me vinha à mente, tão verdadeira quanto o cântico em línguas, declamado por Neemias.


        “É A SUA CHANCE, “bradou Neemias, “PODE SE VINGAR DELA, VOU TER O MAIOR PRAZER DE ASSISTIR, É UMA PUTA TRAIDORA.”


        “BANDO… PORRA NENHUMA!!!” Num só movimento, agarrei as correntes de prata e as puxei, quebrando o pino que as prendia na parede, e sacudi aquele excesso de grilhões sobre o rosto – não, o focinho – de Neemias. Meus músculos pulsavam com uma sensação de poder nunca antes sentida, e punir o pastor só aumentava o prazer daquela sensação de poder. Eu não tinha mais nada a perder na vida, a não ser Vanessa.


        “Como assim ele é imune à prata???” gritou apavorada, aquela coisa cheia de ventosas e tentáculos. Tinha muita razão para estar assustada; eu mesmo me aterrorizava ao perceber que minha pele era agora um couro espesso, cheio de escamas e espinhos, rasgando minha camisa.


        Os três mais fracos estavam como que paralisados frente à cena. A prata, me veio a ideia no fundo da mente. Estilhacei o anel do braço direito de Vanessa, lhe dando mais liberdade de ação e a libertando, também, da dor da prata. Enquanto eu vibrava novamente o emaranhado de correntes na pele do lobisomem – sim, era isto que ele era, sem a menor dúvida, agora – dei tempo suficiente para que Vanessa superasse, um esforço tremendo, a dor e quebrasse o anel de prata do outro pulso. Coisa que nunca mais conseguirá repetir na vida.


        A cabeça animalesca de Neemias estava banhada de sangue e suas feridas eram graves. Ele ainda tentou me atingir com suas garras, mas consegui me esquivar da maioria dos golpes e só um deles me acertou – e o ferimento pouco me atrapalhou, começando a sarar quase que no mesmo instante.


        Aproveitei um momento em que Neemias se contorceu de dor, e o instinto de fuga assumiu: empurrei Vanessa na direção da escada, e corremos. Eles não ousaram nos seguir, os três devem ter tentado cuidar de seu… líder, pastor, o que seja. E que o tal deus amorfo deles se fodesse.


        Quando ultrapassamos a porta que separava o porão do fundo da igreja no nível térreo, consegui ouvir a voz sussurrante de Simão, “É o Dragão… o monstro que devora a lua... estamos acabados…”


        Na câmara onde haviam aqueles divãs todos se encontrava também um grande espelho na parede, como numa sala de dança ou ensaio teatral. E eu me vi. Um monstro reptiliano, de garras malignas empunhando correntes de prata, cheio de escamas e espinhos de cor azulada, a cabeça deformada, draconiana, os olhos de uma cor mortal e prateada.


        As formas de Vanessa começaram a suavizar e seu rosto assumiu as feições femininas que eu conhecia, “Rápido! Não temos tempo pra ficar se olhando no espelho, tio!” Puxou o lençol que cobria um dos sofás e cobriu sua nudez. Minha vontade era de a possuir ali, de novo, como naquela noite, dessa vez, seria tão mais pleno…


        Os olhos de Vanessa se estreitaram e percebi a serpente nela se manifestando, sibilando: “NÃO. AGORA NÃO É O MOMENTO. Vamos sair daqui,” sua voz foi voltando ao normal.


        Naquela noite corremos pelas ruas como dois malucos perdidos num labirinto, depois de ter quebrado uma janela dos fundos da igreja. Em um certo momento paramos e ficamos abraçados como se fôssemos dois indigentes na noite fria e enluarada, marido e mulher, suados e ofegantes, ela muito pior que eu, as minhas roupas rasgadas e ela envolta num cobertor.


        Passou um anônimo na rua, sentiu pena, meteu a mão no bolso e foi tirando umas moedas, dizendo, “Tá precisando de uma pratinha pra alimentar sua esposa, amigão?”


        “Prata?" respondi, finalmente rindo depois de tanto tempo, assustando o transeunte. “Não, pode deixar … já tenho toda a prata que preciso ...” 


        No meu sorriso brilhava a luz da lua; nos meus olhos prateados, a certeza da libertação.



Noite Clara: UM BLOCO DE PEDRA


UM BLOCO DE PEDRA desprotegido ante a erosão do tempo.

Era assim que me sentia naquela noite chuvosa: as dúvidas corroíam meus pensamentos, e dentre estas, a mais dolorosa era a dúvida de como fazer meu relatório para a chefe. Tâmara Diegues era uma mulher exigente, meticulosa, perfeccionista, muitas vezes ríspida. Acima de tudo era a rispidez que me causava o medo, medo da humilhação frente a meus colegas patrulheiros.

Era quase possível vislumbrar a pele bronzeada, vívida, da Coronel Diegues contrastando com as luzes indiferentes e profissionais da Base 17; postura levemente curvada para frente, dedo estendido na minha direção, olhos franzidos num cenho de desaprovação, as pupilas negras brilhando de raiva. Suponho que era mais humilhante receber um sermão gritado, em público, dela, do que de todos os velha-guarda do antigo Exército. Ela era uma mulher, afinal de contas – as coisas não haviam mudado tanto assim, pelo menos no íntimo das pessoas. Em seu verdadeiro centro, elas ainda eram preconceituosas; e assim eram meus colegas.

É claro que o tal preconceito contra mulheres em cargos de alta patente militar não teria mais como se aplicar de verdade ... se havia uma palavra para definir as novas políticas, essa palavra era o pragmatismo. Haviam poucos velha-guarda deixados vivos, simplesmente porque velha-guardas tendem a ser mais velhos que recrutas, e os mais velhos, por mais durões que fossem, tinham menos resistência física e poucos sobreviveram ao choque e impacto da Noite Clara.

A Noite Clara ... não só esta data marcou o mundo, treze anos atrás, como era de fato a razão tanto para eu encarar a Coronel Diegues, quanto para a pobreza do relatório que eu teria que apresentar a ela. Treze anos atrás, 17 de agosto de 2012, marquem bem esta data, quem quer que esteja lendo este diário interno (quem sabe o diário registra a outro cataclisma como aquele e esta seja a primeira referência sobre a Noite Clara que você esteja lendo!). Além da fonte de meus deveres, meus problemas e meus ... poderes, a Noite Clara também é a razão pela qual nossa atual população mundial é de 23 milhões de pessoas.

Sim, muito pouco comparado aos bilhões que antes havia. Nada de ruas abarrotadas, nem de engarrafamentos, nem mesmo falta de moradia ... nada destes incômodos que eu bem sofria quando era adolescente. Eu tinha 14 anos e talvez seja o único de minha grande e (certo, sentimento de culpa básico ao dizer isso) chata família que sobreviveu. Um mundo numa perpétua crise, um estado de tensões que foi quebrado por um clarão, um flash no escuro da noite de 17 de agosto.

Meu relatório, embora necessariamente pobre, já está pronto (inclusive para ser chamado de prova de incompetência, apesar de eu saber bem a causa das minhas omissões) e só devo ir à Base daqui a cerca de duas horas e meia. Sendo assim, umas poucas lembranças devem me distrair da ansiedade. De fato, é para isso que serve o diário interno: um dos programas mais amigáveis dos nano-computadores em meu organismo serve para registrar meus pensamentos e permitir uma análise posterior, mas recitar mentalmente uma narrativa com certeza serve para me aliviar de angústias quando penso no futuro ... por mais doloroso que tenha sido o passado.

Bem, pelo menos é uma dor já conhecida. Vamos relembrá-la, então … a Noite Clara.


Eu estava correndo pelo quarteirão, dando a terceira volta. Eram cerca de oito e meia da noite, e o quarteirão que eu circulava ficava dentro do condomínio de minha família. De todas as características marcantes desse condomínio, a segurança era a mais agradável … pelo menos para quem estava dentro. Para quem estava fora, e queria entrar por alguma razão, normalmente encarada como criminosa, o choque nos muros eletrificados ou o espancamento nas mãos dos guardas de segurança eram uma punição adequada, embora não seja esta ameaça de punição o que tornava meu condomínio mais eficiente em termos de segurança: era sua vigilância – vigilância interna, inclusive: eu sabia que, ao dobrar aquela esquina, pelo menos dez câmeras pequenas e camufladas estariam filmando meu desempenho esportivo.

Ninguém estaria apreciando meus recordes pessoais de velocidade, é claro. A preocupação era outra. Não com ele, morador registrado, filho de proprietária, mas com prováveis intrusos. O sentimento de paranoia era, ali, algo institucional, e portanto, algo tolerado, tido como necessário e facilmente subestimado … absorvido.

Pouco antes que eu começasse a sentir um frêmito estranho em meus músculos, e imaginasse que era o cansaço prematuro (eu era considerado um futuro atleta), com certeza os eventuais vigias que observavam das câmaras estavam sendo absorvidos por sua paranoia interna. Depois de um tempo soube que nenhum deles sobreviveu à Noite. Um esplendor na mente, o juízo queimado por esse clarão, a razão toldada e maculada de forma tão lancinante e total que não era possível nem se mexer, para expressar a loucura que a Noite trouxe. Morte cerebral instantânea.

Muitos, muitos morreram. Alguns conseguiram de alguma forma não ter sua mobilidade roubada e saíram num louco frenesi destruindo tudo como se estivessem possuídos, numa insana fúria contra a substância do mundo material, que só terminou com uma horrenda morte por puro esgotamento do sistema nervoso. Ainda outros penetraram num longo sono até hoje não terminado, e uns poucos que foram atendidos mais tarde e a tempo estão em hospitais especiais com o diagnóstico de coma sobre seus leitos. E uma quantidade ainda menor do que os que caíram em coma naquela Noite abriu os olhos com a mente tomada em chamas e percebeu que nenhum deles era mais como era antes.

O Dom da Noite Clara havia sido forçado sobre esses sobreviventes.


Eu fui um desses sobreviventes, e dentro dessa nata faço parte de outra elite – aqueles cujo Dom é forte, mas não tão forte a ponto de enlouquecer … muito. Eu mesmo tenho sonhos perturbadores, e uma fortíssima sensação de desassociação muitas vezes toma conta de mim, como se eu fosse um bonequinho controlado a distância pelo meu verdadeiro eu. Em compensação, consigo ler mentes e objetos. Me dê tempo para concentração suficiente, concentração firme como um bloco de pedra, e eu posso ler – sim, ler, não consigo ouvir pensamentos – o que acontece dentro da sua cabeça. Leio a história de objetos e locais como se fossem linhas de dados criptografados.

Todos os sobreviventes são assim: a diferença está no grau do poder e no grau de loucura: e esse grau é sempre o mesmo. A mesma proporção irônica. É como se um mordaz senso de equilíbrio sugerisse: o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Esta frase é muito mais verdadeira quando se observa aqueles que meu dever militar impõe como alvos: as abominações de poder e loucura extremos. Como Nicholas Frost, famoso americano capaz de incendiar uma cidade pequena quando fica enraivecido; ou a Cipoal, alcunha de uma mulher que estende tentáculos telepáticos de insanidade pelos sonhos de um centésimo da população.

A população … a grande maioria da população não é nem como eles, nem como eu e meus colegas. A capacidade antes extraordinária de torcer o metal de uma colher, acompanhada de tiques nervosos quase constantes – este é um exemplo do Dom da Noite Clara agindo sobre uma pessoa comum, um daqueles que as patrulhas protegem.

Eu posso ter meus problemas ocasionais – um dia a desassociação foi tão forte que fiquei catatônico por seis horas – mas sou considerado confiável – e útil – o suficiente para ser recrutado pelo governo. E não há muita escolha para nós de poder intermediário. Ser classificado como um patrulheiro em potencial, e recusar, ou ser considerado inútil por razões de confiança (alguns chamariam de razões de moralidade, mas não sou tão otimista: que moralidade convencional imporia assassinato?), significa quase sempre preso por alguma razão pretextuosa. Quase sempre.

E aí está, acabei voltando para a razão da minha ansiedade quanto ao maldito relatório. O diário que serviria para relaxar acaba me deixando mais nervoso. Quando um recruta em potencial se recusa, e foge do treinamento pela patrulha, alguém deve apresentar um relatório sobre o caso. Esse alguém era eu. As omissões no relatório eram deliberadas, visando proteger a futura recruta. E eu sei que a Coronel Diegues desconfiaria. Era inevitável. Mas por enquanto não poderia provar nada, só me pressionar. E ela teria seus meios de reforçar a pressão ...