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terça-feira, 18 de outubro de 2011

MISTÉRIOS DO HORIZONTE

Por
Neith War e The Grey Knight, escrito de 26 de outubro de 2010 a 25 de janeiro de 2011





Houve um momento em que o desejo superou o medo, mas esse momento foi embora.  E ali, paralisado no meio da autoestrada, Dionísio se perguntava o que fazer.  Como não confundir aquele instante de paralisia com indecisão?  Mas, se havia um traço de personalidade que pouco habitava a alma de Dionísio, era a indecisão.  O que ele sentia, ali parado como se esperasse a chuva despencar sobre seu corpo e alma, era apreensão.  Ansiedade.  A apreensão do conhecimento.  Ele sabia, conhecia, e conhecendo, tinha poder.  Mas esse poder não lhe dava – ironicamente – o direito de fazer o que até há pouco estava desejando fazer.  Certamente, o arrependimento viria, tão certeiro quanto a flecha de um Cupido.




Longe dali, num barzinho super badalado, Lívia se divertia bebendo com as amigas. O som estava muito alto, um psy trance cheio de energia, os corpos movimentavam-se como um oceano de carne humana, alguns, alteradíssimos pelo uso de entorpecentes, dançavam freneticamente ao som alucinante.

Era a primeira vez de Lívia naquele bar, suas amigas haviam insistido para que fosse, achavam que ela precisava se distrair um pouco. Lívia olhou para o teto do barracão onde o bar era instalado, sentiu a cabeça girar, abaixou-se entre a multidão e com as cabeças entre as pernas, arrependeu-se de ter misturado a bebida com o alucinógeno oferecido por um rapaz que conheceu lá, nunca havia feito uso de drogas em sua vida, e agora sentia-se estúpida por estar tão mal. Abaixou ainda mais a cabeça e sentiu que ia vomitar, seu estômago doía absurdamente, com as mãos apertando a barriga levantou-se com dificuldade e foi em direção ao banheiro, as pessoas pareciam loucas dançando aquele som ensurdecedor, foi difícil passar entre elas sem levar cotoveladas e empurrões.

Quando chegou ao banheiro, ele estava vazio, suspirou aliviada por poder ficar um pouco sozinha. Molhou as mãos na água da pia e passou na testa, e com as mãos apoiadas na borda da pia, fitou seu rosto cansado. Apesar da maquiagem estar toda borrada ainda podia-se ver que Lívia era uma linda garota, algumas mechas cacheadas caíam suavemente em sua face, o contraste dos cabelos vermelhos na pele branca a deixava ainda mais sensual, seus olhos eram de um azul violeta e expressavam uma profunda tristeza por ter sido tão tola, devia ter ficado em casa. Suspirou resignada e mais uma vez molhou o rosto.  O banheiro era sujo e úmido e a fazia lembrar-se dos banheiros de filmes de terror, riu alto quando pensou nisso e falou para si mesma, “Lívia… você realmente está muy loka, amiga!”

Saiu do banheiro e foi direto para os enormes sofás dispostos ao redor da pista de dança, agradeceu mais uma vez por achar um local para se sentar, a maioria das pessoas ainda dançava freneticamente, não se cansavam de repetirem os mesmos passos música após música. Fechou os olhos por um instante, e então ouviu quando a música eletrônica deu lugar à uma outra música, Change, do Deftones, abriu os olhos assustada com a mudança brusca e teve uma grande surpresa: estava sozinha no imenso salão, esfregou as mãos nos olhos para ter certeza de que estava bem acordada, e quando olhou novamente ao redor, percebeu que o local todo estava coberto por um denso nevoeiro, as luzes coloriam de forma bruxuleante aquela névoa, a música parecia entrar em seu corpo. Lívia sentiu que seu coração iria explodir, tamanha era a força com que batia.

Do meio da névoa surgiu um Vulto que caminhava lentamente em sua direção, sentiu a respiração falhar, estava horrorizada com aquela situação, o medo dominava sua mente, e então, encolhendo-se toda no canto, colocou as mãos no rosto e começou a gritar desesperadamente, sentiu que várias mãos tentavam controlá-la e tentava afastá-las gritando ainda mais alto, então ouviu a voz familiar, era Vanessa, com uma cara assustadíssima.

“Lívia??? O que houve??”

Lívia olhou meio sem saber o que dizer, a música psy irritante continuava a tocar normalmente e não havia névoa alguma, olhou meio atordoada para a amiga e disse, “Só me leve embora daqui, Vanessa...”

Milhares de vozes se calaram de uma só vez, mas a cabeça do Guardião do Poço continuava em silêncio, empalada numa lança erguida contra os céus de cor azul, quase negra.  Raios cruzaram os céus como veias elétricas e fugazes, mas o que restava do Guardião do Poço não se abalou nem disse nada, nenhum oráculo, nem súplica: só seu olhar que me trespassava mais que a lança que o matara.

Dionísio não tinha culpa dessa estranha sinalização, postada no centro de uma encruzilhada que encontrou andando pela rodovia sinuosa, ter sido morta há milhões de anos e ainda nutrir rancor contra quem lhe fizesse perguntas.

Deve ser a chatice do serviço, pensou Dionísio.

Olhou em redor e só enxergou as brumas escaldantes ficarem mais densas, quase ultrapassando os limites do meio-fio.  Não era coisa para qualquer um, andar pela estrada que se esconde por detrás do mundo, a pé, e ser tão efetivo como uma pessoa de carro pelas autoestradas do mundo material.

O próprio tempo era diferente ali, e era muito difícil entender coisas como pontos cardeais, referências espaciais e linhas retas.  O melhor era simplesmente relaxar, andar e esquecer todas essas noções, porque se elas se aplicavam ali, seus significados eram diferentes.

Dionísio suspirou e virou a cabeça para os três caminhos que partiam do poste do Guardião.  Parecia que este não iria cobrar pedágio, mas deveria cobrar caro por informações, só que saber isso não adiantava muita coisa, porque ele ficava mudo até que a oferenda correta fosse apresentada.

E Dionísio não tinha a menor ideia do que era correto.

Em mais de um sentido.

Mas ele tinha uma vantagem, justamente por causa disso: ele era um dos Vultos Vulpinos, um Vampiro Vagante, uma sombra de olhos faiscantes, vinda das profundas do Outro Lado, passada além do Portal do Paralelo para vestir a mente e o corpo de um ser humano que um dia se chamou Dionísio Autran.

Agora ele era só Dionísio, e tinha pressa, embora muita paciência.

A chuva começou a cair, primeiro fina e depois dando sinais que chegaria a uma torrente, ameaçando esmagar quem quer que estivesse exposto na encruzilhada.  Dionísio ignorou o olhar ríspido da cabeça de olhos brilhantes, e adiantou-se até um das saídas, e não aquela por onde veio.

As brumas reagiram à chuva e ao viajante, o estrondo nos céus ficou mais alto, e foi mudando, mudando de tom e ritmo, de forma quase senciente.  Dionísio deu mais alguns passos, e o véu da passagem acariciou o seu corpo, que o sentia como duas músicas distintas unidas num só caleidoscópio sonoro.

Ali, ele não conseguia enxergar o que vinha à frente, onde ia dar, mas sabia que poderia ser visto por alguém azarado (ou azarada, quem sabe…?) o suficiente para isso.  Bom, azar para os outros, sorte para ele.




Naquela noite Lívia não conseguiu dormir direito, só conseguiu se sentir mais segura quando o primeiro raio de sol atravessou a veneziana e por isso, depois de um demorado banho deitou-se confortavelmente em sua cama.

Sua cabeça ainda doía um pouco, aquela imagem bizarra não saía de sua mente, a música, a névoa. E foi com estas lembranças que seus olhos se fecharam lentamente e então, quando o sonho já chegava para descansá-la, sentiu afundar na cama e a sensação de sufoco a fez debater-se, como se estivesse presa numa areia movediça, tentava gritar mas a voz não saía, a visão estava embaçada e sentia um cheiro estranho no ar. Viu-se num rio de sangue escurecido, milhares de corpos cadavéricos boiando á sua volta, sentiu nojo, e desespero, tentou gritar mas sua voz agora ecoava num tom agudo como se fosse o pio de uma coruja; de repente uma mão ossuda segurou sua perna e a puxou para o fundo, tentava nadar para a superfície mas era inútil, a “coisa” a puxava cada vez mais fundo e os corpos de olhos esbugalhados batiam contra seu corpo desfazendo-se deixando rastros de vermes ao seu redor, sem que ela esperasse viu-se frente a frente com uma criatura horrível, algo assustador que era muito pior do que todos os demônios de que já ouvira falar.

Soltou um grito e engoliu muito sangue, perdeu os sentidos, e então num impulso quase que mecânico, seu corpo virou-se na cama e Lívia vomitou algo parecido com lodo e sangue; continuava desacordada, com o corpo pendendo de lado enquanto vários espectros se aglomeravam ao seu redor sibilando e rindo diabolicamente.

Já faziam 10 minutos que Vanessa batia na porta da casa de Lívia sem obter resposta. “O que será que está acontecendo… não deveria tê-la deixado sozinha.” Vanessa deu a volta na casa, e forçando a porta da cozinha, conseguiu entrar, sabia que aquela porta estava quebrada e que Lívia apenas encostava um mesa para mantê-la fechada.

Subiu as escadas que davam para o quarto e quando chegou lá teve uma terrível visão: Lívia estava caída ao lado da cama em seu próprio vômito. Correu até ela e sacudindo-a gritava para que acordasse, Lívia abriu os olhos com dificuldade, e mal consegui distinguir quem estava à sua frente, sentia-se fraca e zonza.

Vanessa imediatamente pegou o celular e chamou uma ambulância.



O espaço tremulou à frente, borbulhando distorcido como um aglomerado de formas rodopiantes.  Dionísio havia ultrapassando a encruzilhada.  Suspirou, não de alívio, mas de uma sensação inesperada de cansaço: que impressão estranha era aquela, de que algo estava faltando?  Era como se sua essência houvesse ido parar de novo no Sheol, no Xibalba, no Hades, qualquer que seja o nome que os mortais deem a esse lugar que não é lugar.

Com aquele estranho peso no peito, como se de uma perda terrível, a sombra que vestia o corpo de Dionísio Autran se achou olhando para o espelho de um banheiro feminino.  Felizmente, sua chegada não foi seguida por gritos agudos, nem por um spray de pimenta no rosto.  Ainda bem mesmo, assim seus olhos verde-esmeralda, que chamavam a atenção daqueles que cruzavam o seu caminho, não sofreriam nenhum dano… por temporário que esse dano fosse, qualquer irritação ou ferimento ainda eram dolorosos.

Conforme caminhava para fora do banheiro, aquela sensação de perda foi se refinando, e a nítida ideia de estar atrasado cruzou a mente do Vulto.  Estava numa boate, e já deveria ser dia, porque não havia ninguém dançando na pista, o chão estava cheio de panfletos, sujeira, e até uma camisinha usada, e ninguém estava à vista, exceto alguém que costuma ser quase invisível, de tão ignorado: a faxineira que com seu carrinho apanhava o lixo e limpava a bagunça da noite anterior.

A moça de traços comuns levantou a cabeça na direção de Dionísio – estava abaixada, catando o esfregão que caíra no chão – e não enxergou nada, embora sentisse um leve aroma de almíscar, inédito naquele ambiente fedendo a cigarro.

Sem esboçar seu sorriso usual, o Vulto caminhou discretamente, mas passando direto ao lado da servente, incólume.  Mas que sorte, pensou Dionísio.  Que coisa melhor para roubar, que o dom da invisibilidade?  Para aquela mulher, aquilo talvez fosse um fardo, mas para ele, um mito vivo, era de uma utilidade tremenda, e um efeito muito maior e mais efetivo, ali no mundo de carne.  E até um dos três marcos do sol – que ele imaginava ser o meio-dia, pelo jeito – aquela mulher atrairia todo tipo de atenção, desejada e indesejada.  Boa sorte para ela …

O Vulto Vulpino caminhou pelas ruas, sem ser notado pelos cidadãos comuns que perdiam seu tempo, rodando como aves que ciscam por aquela cidade labiríntica, onde morava uma menina, talvez uma moça, talvez uma mulher, talvez uma centelha a despertar para um horizonte novo e cheio de sombras e sangue, chamada Lívia.


Lívia abriu os olhos e ficou alguns instantes imóvel tentando colocar as ideias em ordem. Sua cabeça estava um turbilhão, imagens e lembranças misturavam-se à fantasias.

Olhou para o sofá ao lado da cama de hospital e viu Vanessa dormindo, levantou-se e vestiu sua roupa, que estava em uma cadeira ao lado, pegou a bolsa e saiu do quarto sem nem ao menos se despedir da amiga.

Algumas horas mais tarde, Vanessa acordou assustada com uma enfermeira que a chamava.

“Moça, acorde” a enfermeira cutucava Vanessa incessantemente.

“Hã? O que está havendo, onde esta Lívia?” Vanessa ficou apreensiva ao notar que a amiga não estava na cama.

“Ah, a moça que estava neste quarto já foi embora tem algumas horas. Desculpe incomodar, mas vamos precisar deste quarto.”

Vanessa pegou suas coisas e saiu pensativa. Como Lívia podia ser tão ingrata? Nem lhe agradeceu por ter passado a noite ali com ela.  Magoada, Vanessa foi direto para casa, estava decidida a deixar Lívia se virar sozinha dali por diante.

À noite os amigos combinaram de se encontrar novamente no bar à beira da estrada.  Vanessa já havia bebido bastante e se lamentava para a turma dizendo o quanto Lívia era falsa e ingrata, nem retornara suas ligações. Nesse ponto Laura interferiu:

“Mas, Van… pense bem, Lívia anda sob forte estresse, imagine só, como você se sentiria se fosse a principal suspeita da morte de seu namorado?

Caio segurou a mão de Vanessa e a beijou.  “Você tem feito o que pode por ela meu amor, mas realmente é uma situação complicada, você mesma viu como ela ficou naquele dia em que a convencemos a vir para cá.”

Tiago emendou, “Ela nem se arruma mais, antes estava sempre bem vestida e radiante. Deve estar muito deprimida.”

Vanessa concordou, e suspirando, ergueu o copo para brindarem o fato de estarem ali reunidos, mas os copos pararam no ar, como se alguém tivesse apertado o botão de pause de um aparelho de DVD, as bocas entreabertas e os olhares incrédulos na direção da porta de entrada. No mesmo instante, o DJ colocava a música The Spy do The Doors.

Na porta, Lívia estava parada acendendo um cigarro, usava uma saia curta de couro preta e justíssima, uma blusa tomara que caia vermelha, os cabelos soltos, uma maquiagem forte nos olhos e um batom vermelho que realçava seus lábios carnudos. As sandálias de salto fino davam um balanço serpenteante ao seu corpo bem definido, conforme andava parecia deslizar pelo salão, os homens estavam feito lobos, devorando-a com os olhos.

Lívia sequer olhou para a mesa onde estavam os amigos, parecia uma outra pessoa. Caminhou até o balcão e sentou-se em um banco cruzando as pernas bem torneadas. Não demorou muito para que um rapaz se aproximasse e lhe oferecesse uma bebida, que Lívia sorrindo e esbanjando charme logo aceitou.

Vanessa surtou e queria de qualquer forma ir até lá e saber o que estava acontecendo, mas Caio a impediu. Estavam todos chocados com a cena mas os meninos acharam melhor apenas observar Lívia para ver o que ela pretendia, mesmo porque ela parecia nem ter notado a presença deles ali.

Lívia trocava olhares com o desconhecido, seus gestos insinuantes estavam deixando-o louco.  “Como é o teu nome?” perguntou enquanto acariciava a mão de Lívia.

“E isso realmente importa?” a garota respondeu enquanto descruzava as pernas lentamente e cruzava novamente.

Aquele movimento pareceu hipnotizar o rapaz, ele a desejava de uma forma assustadora. Lívia percebeu e sorriu satisfeita, terminou a bebida e o pegou pela mão arrastando-o para o banheiro masculino. Ele a seguia feito um cachorrinho.

Vanessa que via toda a cena ficou horrorizada, quis ir atrás mas foi impedida por Laura.

No banheiro, Lívia entrou em um dos vários sanitários e abaixou a tampa fazendo com que o homem se sentasse. Beijou seus lábios e depois afastou-se sorrindo.

Podiam ouvir a música que acabava de começar, Angels and Drugs de Christian Death. Lívia começou a dançar sensualmente, as mãos do rapaz percorriam suas curvas, ele estava extremamente excitado. Ela tirou a calcinha e sentou-se no colo dele que já estava com a braguilha aberta.

A música estava muito alta, seus corpos em êxtase, loucos por prazer. O homem deslizou as mãos pelos seios de Lívias e abaixando a blusa vermelha começou a chupá-los alternadamente enquanto a penetrava, Lívia movia seu quadril de forma intensa no colo do rapaz, os gemidos se misturavam com as batidas da música. Estavam quase gozando, quando ela parou e olhou para ele de forma estranha, seus olhos brilharam num tom violeta e isso fez com que ele congelasse de medo.

Ela enfiou as unhas na barriga do rapaz e fez um imenso buraco, ele gritava de dor e desespero mas seus gritos eram abafados pelas gargalhadas de Lívia e a música alta da pista de dança.

Lívia levantou-se e ajeitou a saia e os cabelos. O rapaz continuava gritando com as mãos tentando estancar o sangramento, ficou desesperado ao perceber que suas vísceras saíam e tentava, desajeitado, colocá-las para dentro. Lívia retocou o batom vermelho e encostou-se na beira da pia, de onde podia assistir a cena enquanto acendia um cigarro.

Vanessa estava inquieta na mesa, Caio teve medo de que ela brigasse com Lívia, já que estava bêbada e por isso resolveu ir até o banheiro ver o que estava acontecendo. Ao entrar no banheiro, Caio viu Lívia com um sorriso diabólico nos lábios e um rapaz em um dos sanitários gritando feito louco com as mãos na barriga.

Caio correu até ele e o sacudia pelos ombros. “O que houve? Porque está gritando desse jeito, está ferido?”

O rapaz tirou as mãos da barriga e já ia dizendo algo, quando viu que não havia nada, nenhum corte, nenhum sangue, nada.

Olhou desesperado para Lívia, que se mantinha imóvel como se nada visse, então começou a gritar com ela.

“Bruxa maldita!! O que fez comigo? Seu demônio!” levantou-se tentando ir na direção da garota, mas Caio o segurou, Lívia jogou o cigarro no chão, e sem olhar para Caio, ajeitou mais uma vez os cabelos e saiu do banheiro.



“Mistério” é uma palavra tão bela.

Inevitável não pensar nessa beleza, e no poder dessa palavra, ao vagar invisível pelas ruas da cidade onde vagara Kronos, o Maldito. Ele maculara tudo com seus rastros podres, pensava Dionísio. E ao mesmo tempo, o Mistério que envenenava o ar era tão belo, tão poderoso, tão intoxicante.

O Mistério no ar era como um fio de Ariadne, o vampiro parecia vagar a esmo, mas acabou entrando justamente onde deveria. Justo a tempo de não se encontrar com Lívia, mas a tempo de entrar num lugar terrível, na hora exata. Um hospital da periferia, desgraça institucionalizada, o caos imperava pelos corredores, e um vampiro invisível era algo tão adequado, que todos chegavam até mesmo a se desviar de Dionísio, para não se esbarrar nele. Inconscientemente. Aquela sincronicidade que move os humanos sem que eles percebam.

Lá fora o sol quase alcançava o zênite, quando Dionísio entrou, ainda sem ser visto, num vestíbulo da Unidade de Tratamento Intensivo. Duas pessoas pareciam velar uma moça acidentada, uma delas sentada numa cadeira encostada à parede, a outra também encostada na parede, mas em pé. A primeira era uma mulher digitando lentamente num laptop, os cabelos curtos num penteado excitante, os ombros nus cheios de pequenos cabelos cortados. A segunda era um homem alto, mas não muito, moreno e jovem. A mulher parecia ignorar a presença do vampiro, até que ergueu os olhos, que brilharam numa cor púrpura estranha, e voltou a baixá-los para a tela do computador.

O homem foi menos discreto e segurou o braço de Dionísio com uma força medonha, seus olhos faiscaram azuis, cheios de uma cólera celestial, e por um segundo o aperto foi tremendo, mas o homem percebeu os próprios olhos verde-esmeralda do vampiro e acalmou a pressão no braço do vampiro, mas não o soltou.

“Você é Dionísio.” era uma pergunta e ao mesmo tempo uma declaração.

“Você é Belial.” era uma zombaria e ao mesmo tempo um reconhecimento formal.

Ambos sabiam que aqueles nomes eram temporários, era sempre assim para todos de sua espécie… menos para Kronos, o Maldito. Dionísio se virou para a mulher sentada e repetiu o protocolo: “Você é Astarte.” A moça levantou a cabeça apenas o suficiente para responder: “Não, seu idiota. Meu nome é Belin.”

Dionísio riu baixo, virou-se para o outro vampiro e pediu, “Dá pra me soltar? Tem alguma coisa em você que está me incomodando.” Belial também riu, um pouco mais alto, e respondeu “Tudo nessa cidade deveria estar te incomodando, mas você é esperto o suficiente para não mexer comigo. E então, quais são os seus negócios nesses tempos estranhos?”

“Procuro uma presa,” respondeu o Vulto de olhos esmeralda, estampando um sorriso cínico. “Não estou conseguindo, me perdi pela cidade, isso nunca me aconteceu antes. Não sei por quê vim parar aqui, é uma vergonha.”

“Então pode esquecer,” falou o Vulto de olhos azul-cobalto, largando o braço de Dionísio. “Todas as presas que poderiam lhe servir devem ter sido tomadas pela passagem de Kronos, como esta meni...” Um grito de fúria e dor ecoou pela UTI, saindo das gargantas dos quatro naquele vestíbulo apertado, incluindo a menina hospitalizada. Sons, cheiros e um vislumbre macabro tomaram a mente deles: uma explosão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, dor, o desejo de esquecimento, prazer, sono.

Uma enfermeira puxou as cortinas do vestíbulo, assustada, mas Belin, a primeira a se recuperar do choque, virou-se para ela e disse numa voz firme e calma: “Volte para ao que estava fazendo antes, nos deixe em paz aqui e diga às suas colegas que tudo foi resolvido.”

“Essa cena aconteceu ontem ou vai acontecer hoje à noite?...” a voz trêmula de Dionísio soou baixinho. “Com Kronos, nunca se sabe” respondeu Belial. “Pelo menos ele vai dormir por um bom tempo agora.  Eu quase diria, coitado dele, mas é melhor não te dar mais detalhes, é sempre bom te ver ardendo de curiosidade.”

O olhar de Dionísio ficou meio desesperado: “Não faça isso comigo. Nós somos ladrões de segredos. Eu não quero lutar com você. Por favor.” Belial esperava impassível alguma reação, enquanto Belin balançava a cabeça em desprezo. O rosto de Dionísio mostrava algumas gotas de suor, escorrendo trêmulas. Lá fora, o meio-dia chegava, e uma mão diminuta, mas de garras afiadas, segurou o braço de Dionísio, no mesmo lugar onde Belial agarrara, pouco antes.

O rosto desfigurado da menina até pouco antes desacordada se contorceu num esgar de raiva, seus olhos se fixaram no vampiro hesitante e uma voz discordante saiu dos lábios finos: “Você é Dionísio. Eu sou Ananke, filha de Nemesyn.” A apreensão e ansiedade de Dionísio quase chegaram ao nível de pânico. A garota deitada ao seu lado era um Prematuro. Um horror ancestral que, mesmo sendo Vulto, devorava outros Vultos.

O casal de vampiros recuou um passo da cama, e a menina suicida que agora se dizia chamar Ananke recitou um cântico, uma história antiga declamada por Nemesyn, a primeira de todos os Vultos Vulpinos. O medo no coração inquieto de Dionísio foi se dissipando. Quando terminou o poema, a menina deformada tinha estranhas penas afiadas saindo de suas feridas, que não pareciam mais feridas e sim minúsculas bocas. Ela era um monstro muito mais chamativo que qualquer outro de sua espécie, era o que Dionísio sabia; sabia que beberia sangue não por prazer e divertimento, como gostavam de fazer todos os Vultos, mas por necessidade, um desejo quase sexual, tão grande quanto a necessidade dos outros Vultos de devorar segredos e emoções alheias … vontade que Ananke também imporia aos mortais, como qualquer outro vampiro. Ela era um monstro e era maravilhosa, Dionísio e os outros dois sentiam algo próximo do amor, que logo se desfez, quando ela falou numa voz mais composta: “Como há séculos, somos uma ninhada mais uma vez. Ele nos despertou e ele pagará por isso. Vá, corra agora, perca suas esperanças pelas ruas sem fim da cidade, pequeno Dionísio, e vai encontrá-las nas formas belas e cruéis de sua Lívia. Vá agora … AGORA!”



Havia uma sensação de perda no ar quando Dionísio saiu do quarto, era como andar novamente pelas vielas do paralelo, não tinha mais noção de tempo e espaço, de alguma forma, havia uma força oculta e forte que o guiava naquela dimensão sombria.

À sua frente um emaranhado de escadarias que subiam e desciam, uma densa névoa pairava naquele lugar, estava ficando cada vez mais confuso. “Mas que diabos!...” Dionísio mal acabou de pronunciar as palavras e foi sugado por um redemoinho saindo novamente no banheiro daquele bar de estrada.

Com as mãos trêmulas apoiadas na pia ele aos poucos foi recuperando o equilíbrio, olhou para o espelho e viu sua imagem borrada, logo acima um letreiro em Neon piscava, algumas luzes estavam queimadas, ele apertou os olhos para tentar firmar a visão e ler, aos poucos as letras foram ficando nítidas e então uma frase” Bar RAVEN LAKE” , esse nome soou estranho e familiar dentro de sua cabeça mas então percebeu as luzes queimadas e leu novamente “Bar Craven Clarke”

“Estranho…” Sua voz soou com um misto de dúvida e curiosidade.

O som que vinha da pista de dança do bar estava alto e agitado, o que significava que era noite, e por algum motivo ele sentia que estava prestes a encontrar o seu destino. Dois caras bêbados entraram no banheiro gargalhando, mas nem notaram Dionísio, falavam muito e riam demais. Dionísio manteve-se imóvel próximo à pia, sabia que eles não poderiam vê-lo, mas algo aconteceu, um dos rapazes esbarrou em Dionísio e logo depois dirigiu à ele um palavrão, o outro riu e comentou:

“Ih, esse cara aí deve estar muito louco, olha só os olhos dele…”

Saíram rindo do banheiro, Dionísio, ainda incrédulo, olhou seus olhos no espelho, o verde havia se transformado num vermelho vibrante, talvez fosse o contato direto com aquela película paralela na qual se encontrava. Respirou fundo e saiu do banheiro, a multidão e o som alto o deixava enraivecido, odiava aquela aglomeração humana nojenta, mas precisava encontrá-la, precisava de Lívia.

* * *


Quando Lívia saiu do banheiro, Caio correu atrás dela mas não conseguiu alcançá-la, viu quando Vanessa do outro lado do salão levantou-se com as mãos na cintura, apontando para o meio da pista de dança. Lívia dançava sensualmente ao som de Killing Moon, do Echo & The Bunnymen , Caio correu até a mesa onde estavam os amigos.

“E agora pessoal? O que vamos fazer?”

Nesse instante Dionísio viu Lívia, uma sensação de estranho conforto o invadiu, foi caminhando lentamente até ela, olhos fixos nas curvas marcantes do corpo da garota, quando chegou ao seu lado a música acabou, Lívia se virou e então os olhos dos dois se cruzaram, neste instante começava a tocar Mad World, de Gary Jules & Michael Andrews, o que indicava um pequeno intervalo para que as pessoas ali pudessem recuperar suas energias para a próxima seleção dançante, mas Lívia e Dionísio permaneceram na pista, olhos nos olhos, nenhum movimento brusco, foi Lívia quem quebrou o silêncio.

“Estava esperando por você...”

Dionísio sorriu, pegou-a pela cintura e então com seus corpos grudados dançaram,era como se nada mais ali existisse.

Vanessa estava fora de si juntou suas coisas e correu para tirar Lívia de lá antes que fizesse algo do qual se arrependesse, ela sabia que havia algo de muito errado, só não sabia o que era.

Dionísio aproximou seus lábios dos de Lívia, que fechou os olhos numa demonstração de entrega, ele a apertou forte em seus braços e a beijou profundamente, mas não era um beijo comum, ele estava sugando sua vida, um breve sorriso se fez nos lábios da garota, então seus braços penderam soltos ao lado do corpo, a cabeça lentamente caiu para trás e Dionísio a colocou no chão de forma delicada, acariciou seu rosto uma ultima vez.

“Obrigado, minha pequena.”

Enquanto Vanessa e os amigos corriam na direção dos dois depois do que viram, Dionísio saiu andando pela porta, lá fora encontrou um casal que acabava de chegar num carro preto esportivo, chegou bem próximo ao rapaz e ao olhar fundo em seus olhos ele lhe entregou as chaves, Dionísio entrou e preparava-se para partir quando Caio e Tiago apareceram na porta, correram até Dionísio gritando.

“Maldito assassino! Nós vamos te pegar.”

Dionísio acelerou e entrou na pista, Caio e Tiago pegaram o carro e começaram a persegui-lo, estavam muito rápidos, de vez em quando precisavam frear bruscamente por causa de algum carro que vinha na pista contrária, logo à frente, numa curva fechada, um caminhão que vinha na outra pista não conseguiu frear a tempo, o carro em que Caio e Tiago estavam rodopiou várias vezes, batendo na traseira do carro de Dionísio, que foi jogado contra uma árvore, logo em seguida o outro carro também bateu na mesma árvore e uma enorme explosão iluminou toda aquela área, na pista o caminhão tombava se arrastando por vários metros, deixando uma imensa mancha de óleo.

Dionísio saiu do meio das chamas, sua pele levemente queimada, andou alguns metros no matagal e então encontrou uma enorme poça de lama onde cavou e satisfeito por ter conseguido o que queria, se enterrou profundamente, fechou os olhos num misto de dor e prazer, era hora de descansar, havia muito o que fazer ainda naquela cidade.

Belin e Belial estavam parados a poucos metros de onde o acidente havia acontecido, ela olhou para Belial num tom meio desconfiado.

“Você acha que ele percebeu algo?”

“Não creio. Mas só teremos certeza quando chegar a hora certa.”

Belin abraçou-se à Belial, sentia-se protegida junto dele, mas tinha medo do que ele era capaz para ter o que queria.

As duas sombras Vulpinas sumiram em meio a uma densa neblina.















Trechos deste conto na fonte GEORGIA foram escritos por Neith WarTrechos deste conto na fonte ARIAL foram escritos por The Grey Knight (Arthur Ferreira Jr.'.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

LIBERTAÇÃO

Arthur Ferreira Jr.'.



How much deception can you take?
How many lies will you create?
How much longer until you break?
Your mind's about to fall
And they are breaking through
They are breaking through
They are breaking through
Now we're falling, we are losing control

Muse, MK-Ultra



O BURBURINHO VAI AUMENTANDO NA IGREJA, conforme eu vou me espremendo pela multidão. Muita gente vestida de terno e gravata, saias compridas, roupas de mangas e golas mais envergonhadas, até mesmo crianças vestidas desse modo, presas em sua ânsia de brincar naquele lugar sagrado. Já era meu costume usar gravata no dia a dia, apesar de ninguém jamais me ver assim durante a noite – a verdadeira noite, quero dizer, não essa que se sente lá fora, no sereno úmido e na lua redonda. Súbito, o alvoroço da multidão cessa, e ouço retumbar nos alto-falantes uma bateção nervosa feita com os dedos, aquele praxe para checar o áudio e ao mesmo tempo avisar aos devotos que o pastor começará seu sermão. E aquela voz. Vibrante, impetuosa, quase furiosa: “IRMÃOS!”


        E nesse momento, eu sei, com toda certeza e verdade: estou na Igreja da Libertação de Deus.


        O pastor começa a vociferar aleluias e prometer dádivas divinas aos fiéis, castigo aos impuros e, mais importante, a libertação aos aflitos. Contrariando o que eu em parte esperava – já havia estado em algumas igrejas evangélicas, embora, ao entrar ali, eu já soubesse que não se tratava exatamente uma igreja normal de crentes – o pregador não pediu dízimos nem ofertas, não exaltou a necessidade da Igreja de ser sustentada pelos frequentadores, nem ordenou a passagem de saquinho de doações, nem mesmo usou de expedientes visíveis para forçar a culpa na garganta dos presentes, que poderiam se sentir mal se não contribuíssem. Se eu esperasse um local normal de pregação, estranharia também a falta de culpa nas noções do pastor, já que, embora eles raramente falem essa palavra (lidar com a isso é algo largado mais na mão dos católicos), a culpa seja algo de que a maioria desses cristãos buscam se livrar – mas que sempre os perseguem. O pastor não falou de culpa, nem pediu dinheiro. Não fez nada disso, e pareceu aproveitar o tempo que essa omissão lhe dava para exemplificar a libertação dos angustiados: chamou a primeira pessoa a ser liberta.




VAMOS RETORNAR ALGUNS MESES. Minha filha ainda estava viva. Cátia era uma garota esperta, cheia de vida, como canta o clichê. Uma moça que eu gostava de acreditar ser inocente (não no sentido de virgindade, mas sim de pureza de caráter, de ideias), de andar nos trilhos da normalidade. Algo lá no fundo me alertava que essa e outras crenças que eu mantinha não passavam de ilusões. Como sempre, não prestei a atenção a essa sensação, até que fosse muito tarde.
        
        Catuxa (era o apelido que minha mulher lhe dera) começou a sair muito à noite, e voltava estranha, seu comportamento alterado. Discutia com a mãe, me xingava, e depois se trancava no quarto. Eu e minha esposa discutimos sobre a possibilidade da menina estar consumindo drogas. Pois bem, estávamos certos, mas aquilo era só a ponta do iceberg, estávamos apenas… arranhando a carne da verdade.


    
FUI ARRANCADO DO DEVANEIO pelo berro da moça no tablado onde o pastor se movimentava, microfone em punho. Ela chorava, dizia sentir algo dentro de si que a atormentava dia e noite, queixava-se de dores, calafrios, e culpava o diabo. O pastor a agarrou pelos braços, deu cinco sacudidelas bem fortes, gritando nomes estrambóticos, que meses atrás me pareceriam ridículos. Eram palavras arrastadas, diria mesmo guturais, mais surpreendentes e assustadoras que o costumeiro espetáculo do religioso manifestando o pretenso dom de línguas.


        Nada daquilo parecia forjado – pelo contrário, a sensação de verdade, de autenticidade, permeava o ambiente. Não havia nada de hipócrita no comportamento do pastor, e eu tinha total certeza disso. Nos últimos tempos, eu desenvolvera um bom juízo de caráter, estando completamente certo de que aquele homem – chamava-se Pastor Neemias – acreditava piamente em tudo que fazia. Mesmo um tanto chocado com a violência do ritual e com as vociferações de Neemias, o estranho era que eu simpatizava com ele.


        Mas não com a moça escorrendo baba e convulsionando diante do pastor; ela merecia morrer.




A MOÇA SE PARECIA MUITO com minha filha Cátia. Olhos amendoados, grandes, pele bronzeada, cabelos lisos de índia, os contornos jovens de seu corpo tornados evidentes pela roupa um tanto apertada. Minha filha, tão esperta e cheia de vida. Minha filha, escorrendo baba e convulsionando diante de mim, há cinco meses atrás.


        Eu não sabia bem o que fazer. Era uma overdose. Ela não chegara em casa muito bem, trocando pernas, dizendo que enxergava coisas pela casa, reclamava do cheiro forte do lixo que ainda não fora trocado … trancou-se no quarto depois de um breve escândalo, coisa a que já estávamos acostumados.


        O que não estávamos acostumados era ao silêncio que se formou na casa, com ela dentro do quarto: normalmente, ela colocaria o som a altos brados, ou então resmungaria coisas estranhas que eram ouvidas no corredor. Forcei a porta, agoniado, e lá estava ela, num estado muito parecido com o da moça sendo curada pelo pastor …




O PASTOR SACUDIA OS BRAÇOS da moça, e num momento julguei enxergar que as unhas do pastor haviam se tornado garras afiadas, e rasgado a carne da menina convulsa. Mas essa impressão não durou menos de quatro segundos; talvez tenha mesmo acontecido.


        A moça praticamente desmaiou e foi retirada do palanque por um assistente. Quando passou perto de mim, carregada, eu enxerguei uma marca – praticamente um desenho – um arranhão profundo em seu braço, e ao vê-lo a sensação de que a moça deveria morrer aumentou.


        Essas ideias estranhas, esses impulsos mórbidos e imperativos, me perseguiram nos últimos meses. Não sei mais o que fazer, e vim aqui na igreja buscar alívio. Será que vim ao lugar certo?






CÁTIA ESTAVA INTERNADA num hospital, recuperando-se da overdose da qual sobreviveu. Foi nessa época que ouvi falar pela primeira vez da Igreja da Libertação de Deus, pela boca de uma prima.


        Ela falava dos milagres realizados pelos Pastores Simão e Neemias, que traziam alívio a endemoniados e viciados. E haviam vários viciados naquela comunidade onde ficava a sede da igreja. Os pastores chegaram até a atrair a atenção dos traficantes da região, mas depois de uma conversa a sós – assim corria o boato – o “dono” do morro deixou de interferir com a Igreja. Talvez tenha notado que essas “curas” não afetavam seu comércio; na verdade, um número cada vez maior de consumidores surgia, e as curas também aumentavam.


        Essa última opinião, cheirando a teoria da conspiração, emitida pelo sogro de meu vizinho, não era ouvida nem considerada pelos simpatizantes e defensores da Igreja da Libertação. Meu vizinho mesmo dizia que, no mínimo, a Igreja deveria ter algum valor ou caráter, porque não via as explorações que enxergava em outras igrejas do mesmo gênero. O sogro, seu Raimundo, argumentava que nem toda igreja evangélica explorava, que a Igreja da Libertação de Deus nem mesmo era evangélica de verdade, e que achava que as pessoas que iam lá sofriam uma lavagem cerebral.


        Só essa palavrinha desmoronava todo o crédito que eu poderia dar a seu Raimundo. Todos caíam na gargalhada, na rodinha de cerveja em frente ao botequim onde eu me reunia com os amigos, e a coisa ficava por aí, seu Raimundo envergonhado e seu genro acabava balançando a cabeça numa ironia muda, virava mais um copo e todos o imitavam, e o assunto mudava para outro qualquer.


        Eu estava frequentando demais aquele botequim, porque o problema de minha filha me angustiava sobremaneira. Os amigos já evitavam tocar nessa questão, e pouco a pouco eu já ia lá sem os amigos – afogava as mágoas na cachaça, sozinho, em plena madrugada, quando a insônia e os pensamentos recorrentes não me deixavam dormir.


        Uma culpa, principalmente, não me deixava dormir. Aquilo só podia ser culpa minha, porque minha mulher era tão cuidadosa, e eu, tão distraído. Eu deveria ter sido o pulso firme dentro da casa, ser mais homem, mais pai de família, enfim. Eu estava com quarenta e um anos, mas me sentia uma criança diante daquilo tudo, isso sim.


        Queria me livrar da culpa; me libertar.






O PASTOR NEEMIAS SE RETIROU do palanque e era a vez do Pastor Simão falar. A voz de Simão era bem mais suave, mais melíflua, quase tentadora. O pastor se enchia de piedade pelos escravos do mundo, dizia. Satanás tinha este mundo preso em suas garras, repetia pela terceira vez. “Irmão,” continuava o pastor de traços magros e tez pálida, olhos muito vívidos mirando a congregação, “sim, estou falando com você que veio hoje pela primeira vez. Não sei quem você é, mas não está mais sozinho. Porque o diabo – o diabo… – o diabo o tinha em suas garras e o afastava do caminho certo, mas você conseguiu fugir dele. Está aqui agora como os outros pintinhos, aninhados pelas asas da galinha, salmo 91, versículo 4. Ficai conosco, irmão! Essa angústia que sentires a será exterminada pela espada do anjo vingador!”


        Quando se empolgava, Pastor Simão misturava os tempos verbais e as citações bíblicas, mas ninguém ali estava ligando para isso – só a possibilidade, o aceno da libertação importava. Na verdade, ninguém se importava com a espada do anjo vingador, por mais próxima que ela na verdade estivesse…


        O que eles queriam era o êxtase, a glória do Senhor, e isso, ou algum sucedâneo ainda mais viciante que o sentido em outras igrejas, era o que Simão ia lhes dar. Depois de algum tempo falando, e se enrolando, Pastor Simão começava a jorrar bênçãos sobre a assistência, falando em línguas sussurrantes, quase orientais e pseudo-semíticas, um sussurro híbrido, tão alto que era ouvido de um canto a outro da igreja.


        Eu não me refiro só à amplificação do alto-falante. Havia algo naqueles sibilos que preenchia a sala, hipnotizava, e as pessoas começavam a também gritar em línguas, dançar frenéticas, rodopiar, pôr as mãos nas cabeças umas das outras, em nome do Senhor… a princípio não parecia nada muito diferente do que eu poderia presenciar em outros lugares assim, mas se numa outra ocasião eu ria daquilo tudo, agora me sentia tocado. A glória me invadia, e queria expulsar a angústia em meu coração.
    
        Não era só isso que era diferente de outras igrejas – enquanto eu dançava ritmado em meio ao povo, vi várias pessoas se beijando compulsivamente, e pessoas que eu pensava que eram estranhas umas às outras. Outras pessoas não eram tão estranhas assim – logo percebi, quando vi duas irmãs se beijando num abraço nada fraterno.


        Mas era a glória de Deus, a libertação de Deus. Nada de culpa, nada que me faria lembrar de minha filha… oh, não, mas uma das duas irmãs se parecia tanto que aquela amiga de Cátia que me procurou um dia…






CHAMAVA-SE VANESSA. Lábios finos, um sorriso tímido, cabelos cacheados e castanhos, pálida, baixinha e de óculos, mas muito graciosa. Atenciosa. Depois de um tempo ela largou os óculos e passou a usar lentes de contato de cores estranhas. Às vezes essas lentes brilhavam no escuro, era o que eu percebia quando ela vinha pedir notícias de minha filha, vinda da rua em sua iluminação defeituosa. Parecia estar se vestindo do mesmo jeito que minha filha, mas seu comportamento não era tão preocupante.


        Eu me preocupava mais com essas vindas quase à meia-noite, o bairro estava se tornando perigoso naquelas noites, talvez fosse a proximidade da favela, mas por outro lado, aqueles assassinatos que apareciam nos noticiários não pareciam coisa dos traficantes. Os especialistas no jornal diziam ser latrocínios perpetrados por alguma gangue, e não queima de arquivo ou coisa do tipo.


        A última vez que vi Vanessa não havia muito escuro lá fora, porque a lua estava bem cheia no céu. Dava para enxergar um halo bem forte ao redor do satélite, suas cores estavam quase psicodélicas, quando as formas e o rosto da menina ficaram visíveis diante da janela do segundo andar – eu estava arrumando meu armário e quase tomei um susto quando ouvi o “psiu” da amiga de minha filha.


        “Vanessa! Que diabo é que está fazendo aí na árvore?”


        “Tio,” falou a mocinha a coisa de um metro de distância, “o senhor precisa me ajudar. Deixa eu entrar, escancara a janela pra mim.”


        Minha mulher tinha saído naquela noite, visitando uma amiga. Foi uma coisa que de imediato me causou vergonha, mas estar daquele jeito com uma jovem assim, ainda mais amiga da minha filha, me excitou um pouco. Abri a janela.


        O que se seguiu foi estranho. 


        Ela pulou da árvore para dentro do quarto e caiu perfeitamente em pé, a cinco centímetros de mim; seus olhos brilhavam e aquela minha excitação que havia sido tingida de vergonha, se converteu em medo do desconhecido … até que percebi que os olhos brilhavam pela incidência da luz da lua sobre suas lágrimas: ela estivera chorando!


        “Tio, ela está morrendo… e eu não pude fazer nada pra evitar!” Desesperada (assim parecia), me abraçou com força. Não tive jeito de reagir ou de a recusar.


        A pele dela era quente, o abraço, forte. Mais forte do que deveria ser o abraço de uma menina daquele tamanho. E ela parecia tão cheia de vida … a minha excitação voltou, superando a pena e a confusão. E ela reagiu, rápida, à minha excitação. Já estava agarrando meu torso, o apertou com mais força e me beijou na boca.


        Sua saliva era quente e de um gosto bem mais forte do que qualquer boca que já beijei; sua carne, deliciosa ao toque e seu cheiro de mulher, que ficava mais forte, avassalador. Eu poderia me perder naquelas sensações. Mas algo me ocorreu e segurei-lhe os braços, impedindo que aquilo continuasse: “Que é isso? E quem está morrendo, Vanessa?”


        “Cátia. Me perdoe… eu… eu fiz besteira...” mas balançou a cabeça como se estivesse dizendo bobagens, e consertou: “quer dizer, eu acho que ela está muito mal, eu sonhei com isso.”


        “Não quer dizer nada. Ela está no hospital, e bem. Senão eu teria sido avisado. E, Vanessa…”


        “Mas eu não suporto. E será que fiz errado em passar aqui? Preciso de apoio. E também, não consigo me concentrar com…” interrompeu o próprio discurso de novo. “Me traz um copo d'água? Não tou muito bem.”


        Assenti, meio aliviado de ter alguns instantes para avaliar a situação, enquanto descia para pegar a água. “Traga dois copos!” gritou ela do quarto enquanto eu descia as escadas.


        Peguei logo uma jarra e subi de volta, rápido; nem consegui, também, me concentrar no que estava de fato acontecendo. Era como se eu fosse um hiperativo.


        “Minha família é espírita,” ela foi explicando assim que entrei de volta no quarto, “e eles dizem que beber água fluidificada faz bem quando a gente está assim, abalada. Então vamos nos concentrar um pouquinho, eu não quero rezar, nem sei rezar direito, dizem que a água se energiza e se bebemos, faz bem, acalma, sei lá.”


        Achava aquilo uma tolice, mas concordei por talvez poder acalmá-la. Por outro lado, a situação era meio… broxante, para usar a palavra exata. Eu havia estado extremamente excitado poucos minutos atrás e agora ia “fluidificar” água junto com aquela garota.


        Ficamos um tempo parados, sentados no chão do quarto, a luz da lua caindo sobre o aposento mergulhado em penumbra. Até fechei os olhos, entrando na onda dela, para melhor me “concentrar”. Logo depois que fiz isso, ela disse, “Vamos beber, então.”


        Tomei a bebida a goles sôfregos, queria acabar logo com aquilo. Ela também bebeu o copo dela bem rápido, e não contou conversa, me agarrando de novo. Ela não saiba o que queria, afinal de contas!


        Nos abraçamos e ela ficou por cima de mim, ávida, feroz. Acabamos tirando a roupa e começamos a fazer sexo ali mesmo, no chão. Parecia tudo muito bem (eu havia esquecido completamente a existência de minha mulher e de minha filha hospitalada), o cheiro dela invadia todo o quarto, era como se fosse uma nuvem invisível me afetando, me atiçando… até que ela começou a se empolgar demais.


        Os dois sentados um diante do outro, as pernas em tesoura na penetração, ela arranhava minhas costas com uma força além de qualquer outra mulher que havia me arranhado antes. Era dolorido e as unhas pareciam mais garras que outra coisa. Além disso, eu estava começando a me sentir esquisito: me mexia dentro dela com uma velocidade anormal, como se fosse um animal selvagem, e minha vista começava a … borbulhar na minha frente, distorcendo o que eu enxergava. Os cheiros começavam a ficar mais fortes, além do cheiro dela, eu sentia o cheiro de madeira da chuva da tarde, que havia subido pelas casas há várias horas; o cheiro do perfume de minha mulher, que estava bem longe dela, mas ficou parada pondo perfume na porta do meu quarto, enquanto conversava comigo, umas duas horas antes; o cheiro de comida vindo da geladeira fechada. O cheiro da luz da lua entrando no quarto. O cheiro de minha mente estalando, o cheiro da fome de Vanessa.


        Ela me derrubou no chão, grunhindo: “Sente o sangue ferver? Sente tudo mais forte? MAIS VIVO?” Suas formas pareciam animalescas, diante de mim. O que eu enxergava era uma mulher e um bicho ao mesmo tempo, sua vagina era quente e apertada, apertava demais, ela tinha escamas por todo o corpo e seus olhos brilhavam com uma luz muito amarela, vívida. A língua (parecia bífida) vibrava para fora da boca, que se escancarava ao gritar, gemer, num ângulo impossível para uma mandíbula humana; como se ela fosse uma cobra prestes a engolir um touro.


        E eu me sentia sendo engolido.


        Logo, isso se provou literal. Ela avançou sobre meu ombro, me segurando com toda força, e eu não conseguia reagir, ainda preso sob ela e entre suas pernas. Me sentia como se estivesse drogado. E ela me mordeu o ombro; não só mordeu, mastigou e arrancou pedaços do meu ombro. Senti-me devorado vivo e desfaleci de dor, não sem antes as alucinações piorarem e eu enxergar Vanessa tornando-se uma serpente gigante, enroscando-se em volta de meu corpo, me estrangulando…


        Acordei no chão, com uma dor de cabeça incrível. Já era de manhã e a luz do sol entrava, iluminando tudo de modo tênue. A porta do quarto estava fechada e dava para enxergar a chave virada nela, deixando-a trancada. Droga, a minha mulher… onde será que ela havia dormido?


        Com a cabeça rodando, examinei meu corpo e vi que havia, sim, uma marca no ombro – mas podia ser muito bem uma marca de uma queda, eu poderia ter caído da cama … parecia uma mordida, e ao mesmo tempo não parecia. O ferimento ardia e eu sentia quase como se ele estivesse se fechando.




ME PEGUEI BEIJANDO A MOÇA que parecia Vanessa. Bom, agora eu não tinha satisfações para dar à minha mulher: ela havia me deixado, depois da morte de Cátia. Sim, porque Cátia havia, sim, morrido no hospital naquela mesma noite; e minha esposa havia esmurrado a porta do nosso quarto, tentando me avisar, mas eu juro que não ouvi nada, naquele sonho estranho com Vanessa.


        O salão havia se convertido em uma quase orgia. Ainda bem que a igreja não era do tipo de portas abertas, aceitando os fiéis ou curiosos que passam pela rua. Não, a igreja – aquela filial da igreja – ficava num antigo cinema, mas a assembleia acontecia mais para dentro, na sala de cinema propriamente dita. Não vi cenas de sexo propriamente dito, mas era tudo como uma bacanália, em vez de bacanal: uma celebração dionisíaca, vários cantavam hinos em meio à liberação.


        Então, de maneira quase orquestrada, simultânea, todos começaram a louvar a Deus num hino, pulando e erguendo os braços. O pastor Neemias reapareceu no palco e voltou a bradar em línguas … só que, desta vez – e eu já estava bastante alto, como se estivesse alcoolizado, e olha que fazia uns dois dias que não bebia – “entendi” o que ele gritava, era também um hino, mais ou menos assim (aquelas palavras ficaram gravadas a fogo em minha mente, e era só em minha própria mente que as compreendia):


        Ave, Senhor Tsathoggua, Pai da Noite!
        Glória, ó Antigo, Primogênito da Entidade Exterior!
        Salve, Aquele Que Já Era Antigo Além do Imemorável
        Quando as Estrelas Geraram o Grande Cthulhu!
        Todo Poder ao Rastejante Ancestral, sobre os lugares podres de Mu!
        Iä! Iä! G'noth-ykagga-ha!
        Iä, Iä, Tsathoggua! 



        Depois que pronunciou aquelas frases (algumas das palavras eram percebidas como pura insensatez, como esse “Tsathoggua”), os fiéis foram se dispersando em fileiras mais ou menos organizadas, saindo do salão de assembleia e dirigindo-se às saídas; mas nem todos.


        Fiquei meio sem jeito com tudo aquilo (sei que andava mal da cabeça e do coração, nos últimos tempos, mas aquilo superava muito, em estranheza, o que eu esperava) e já ia dando mostras de também ir embora, sem chegar a falar de fato com ninguém, quando senti uma mão no meu ombro.






        Era o Pastor Simão.


        Ele tinha um pouco de mau hálito, disfarçado pelo uso de balas de canela (dava para perceber com nitidez). “Você parece não pertencer ao rebanho, irmão” disse o pastor.


        “É a primeira vez que venho aqui, e…”


        Ele riu. “Não era disso que eu estava falando.” Seus olhos brilhavam, intensos, meio que me sondando. Ficou alguns segundos esperando que eu disse algo, talvez, e completou: “O Pastor Neemias quer falar com você.”


        Como assim? Não estava entendendo nada, será que alguém do bar falara dos problemas com esse pastor? Só fiz assentir e Neemias fez um gesto para que o seguisse. No meio do caminho, algumas pessoas desativavam os aparelhos de som, enquanto outras, bem menos numerosas, se encaminhavam para a parte ainda mais interna da igreja.


        E foi para lá que nos dirigimos. Chegando numa sala mais ou menos ampla, embora bem menor que o salão, cheia de cadeiras e (o que era estranho para uma igreja) divãs, ou sofás de reclinar, parecidos com aqueles dos filmes romanos. Havia ali também uma espécie de púlpito.


        E, recostado sobre ele, de jeito quase displicente, o Pastor Neemias, cofiando a barba grisalha. Era um homem robusto, apesar da idade talvez já acima da casa dos cinquenta.


        “De onde veio, você, irmão?” perguntou ele, ríspido, entrando em choque com a simpatia que senti por ele, que viera ali quase disposto a contar tudo dos últimos meses, como se ali fosse um confessionário católico. Da morte da minha filha, dos sonhos estranhos, das ideias despropositadas, da fim do meu casamento, do sumiço de Vanessa. Talvez eu viera no lugar errado. Talvez não.


        “Me recomendaram esta igreja, eu ando meio angustiado, e…”


        “Corta essa conversa de crente. Dá pra sentir o seu cheiro, você achava que não?” Despegou-se do púlpito e veio avançando na minha direção.


        “Do que é que você está falando?” Apreensivo, olhei para os lados: eu, os dois pastores e mais umas três pessoas, incluindo aí duas mulheres. Vestidos do jeito padrão para um grupo de crentes, mas com uma postura corporal totalmente distinta. Diabos, um deles parecia estar mostrando os dentes para mim!


        Aquilo, mais Neemias se aproximando como se fosse fazer círculos ao meu redor, me despertou uma espécie de reação automática. Minha postura ficou um pouco mais curvada, os membros, tensos, pronto para responder com violência, se fosse necessário.


        “Isso aqui é nosso território,” sussurrou estranhamente aquele que se dizia Pastor Simão. “Não acha que fez mal ir entrando sem ter avisado antes?”


        “Não faço ideia do que estão falando,” repeti. “Para mim, isto aqui era apenas uma igreja… normal.” Esta última palavra demorou um pouco para sair; eu mesmo sabia que estava mentindo, nunca ouvira falar da Igreja da Libertação de Deus como igual às outras. Apesar de nunca ter me chegado notícia de orgias, antes.


        A cara que Neemias fazia era de raiva e confusão. E eu, se não estava totalmente assustado, estava muito apreensivo. “Que é isso de território?” perguntei, dando um passo em direção à porta por onde havia entrado.


        Mas fui impedido de me movimentar com mais liberdade, porque o homem que mostrava os dentes para mim, nos cantos da sala, avançou também e cortou minha saída. Talvez tivesse agido contra mim, se uma das mulheres não segurasse seu pulso, vindo rápida na direção dele, e falasse alto, para todos:


        “Esperem! Ele pode ser um apagado… um novato que não sabe o que é. A Garra anda provocando muitos desses, ouvi dizer.”


        “Mas o cheiro dele é diferente,” interrompeu Simão. “Tem alguma coisa diferente nele, é como se fosse um licantropo há anos!” Licantropo? Aquela palavra estranha me deixou mais confuso, onde já a houvia encontrado…?


        “Não importa” falou o homem de dentes expostos – o cheiro dele também era forte, como de um cachorro que não tomava banho; olhando também para a mulher que havia intercedido, percebi que ela tinha um cheiro insinuante e forte, e que, na verdade, a linguagem corporal de todos eles se parecia com a de animais. “Se é um novato, vai ter que se submeter a nós.”


        Submeter? Eu começava a ficar ainda mais nervoso.


        “Calma,” interveio Neemias, agora um pouco menos tenso. “Vamos lá, irmão. Faça o que veio fazer aqui, ou o que disse que veio fazer aqui. Conte seus problemas.”


        Os outros relaxaram um pouco a postura de alarma, era como se Neemias fosse o chefe deles, incondicional. Então desabafei, contei tudo que esperava contar, dos sonhos, da minha filha, de Vanessa (esquisito que quando mencionei esse nome e o incidente, alguns deles ergueram as sobrancelhas), das alucinações… nesse ponto, perguntei, “Quem é Tsathoggua?”


        “Ah, irmão!” reagiu Neemias. “Então você é digno de saber a verdade do nome de nossa igreja. É um duplo sentido, sabe… a Libertação é a Libertação de Deus, você veio aqui se libertar do próprio Deus, porque o Deus que aqui cultuamos não é esse deus fraco que se faz de forte, que os homens conhecem mal e por medo, o procuram; veneramos um deus como nós. Como eu e você. Ele é um guia, Tsathoggua. Um ser amorfo, divino, como você e eu.”


        “Como eu e você?!?”


        “Sim, mas acho que uma imagem vale mais que mil palavras. Chegue aqui, vamos até o porão. Vai ter que confiar em mim, e sabe que não tem muita escolha. Mas não te desejo mal, e você sabe disso, também. Não é?” De novo, aquela aura de simpatia e confiança, mesmo no meio de estranhas conversas e algaravias em línguas desconhecidas.






       
DESCEMOS AS ESCADAS SUJAS que se escondiam atrás de uma porta discreta. Eu ia ao lado de Neemias, enquanto Simão e os outros (que disseram se chamar Teodoro, Liziane e Marluce) vinham logo atrás. Por um instante pensei que ia encontrar um tipo de calabouço iluminado por tochas, ou então um local ritualizado, cheio de velas, mas não era nada disso; no caminho alguém apertou uma tecla e luzes fluorescentes encheram o pavimento inferior. Foi então, ainda no alto da escada, que a vi.


        Aquela coisa. O cheiro dela era ainda mais forte que o dos outros, extremamente familiar e ao mesmo tempo surpreendente. Uma mulher (via-se pelo contorno dos seios, de bicos muito pontudos, e pelos quadris arredondados) coberta de escamas muito grossas, negras… e a cabeça era totalmente ofídia, com um capelo de naja, no lugar dos cabelos. Ela estava nua, acorrentada a uma das paredes daquele… deveria chamar de dormitório? Estava cheio de camas de campanha.


        Ao nos ver, o monstro começou a se debater e berrar. “A porta lá em cima está bem fechada?” perguntou Simão a uma das mulheres, que assentiu afirmativa.


        “O… o que é isso? Será que estou sonhando, de novo?”


        Neemias foi me empurrando pelas escadas e falou, na voz uma seriedade forçada contrastando com o rosto alegre e excitado: “Não a reconhece? É ela. Aquela que matou sua filha.”


        “Matou minha filha, como assim? Minha filha morreu de infecção hospitalar!”


        “Não exatamente. Sua filha só estava naquelas condições, para começar, por causa de… Vanessa.” Aquela era Vanessa? Percebi então como aquele ser se parecia com as formas do corpo da moça que eu só havia visto nua uma vez, em sonho; e que parecia não muito sonho, agora; e foi então que me lembrei de como o sonho terminou…


        “Nós sabíamos da sua história, indiretamente,” falou Simão, mais uma vez num sussurro, mais um sibilo agora, “por ela, que era parte do bando. Agora está aí, de castigo. Foi ela que apresentou a droga Garra para sua filha; foi ela que tentou reanimar sua filha no hospital, e falhou; foi ela que, depois de falhar, foi se consolar com você, e acabou fazendo de você… um aperitivo. Já fez isso antes, matou um tal Caio, melhor amigo dela… Mas ela não imaginava que ao… temperar você, acabasse te despertando.”


        “Bando? Tempero?” Então, me veio o choque. Ela havia me drogado, posto algo na água, enquanto eu me concentrava, naquela noite terrível. “Mas porque ela fez isso???” perguntei desesperado.


        “Porque ela gosta do tempero da droga na carne humana… a GARRA que desperta ALGO naqueles destinados, a Garra na carne humana… coisa que você também vai aprender a gostar,” respondeu exultante Neemias, me segurando pelo braço, “porque você é um de nós!”


        A coisa serpentina diante de nós começou a se debater quando Neemias se transformou, seu agarrão no meu braço tornando-se cinco garras me prendendo com força. Era um monstro peludo, que ao crescer rasgou o paletó de Neemias, postura curvada e cabeça como a de um gigantesco chacal ou lobo.


        “ENTÃO,” grunhiu Neemias, “JÁ SABE AGORA O QUE VOCÊ É?”


        Os sonhos. Os sonhos que eu havia tido naqueles últimos meses, me vieram como um baque sobre a cabeça. A vontade de matar era genuína, porque eu era um monstro. Não sabia se tinha mesmo estripado inocentes daquela forma que me lembrava, nos sonhos, mas era tudo vividamente real. Eu corria pelas ruas da cidade, livre, caçava e matava e devorava.


        Os outros assumiam formas animalescas menos evidentes, mas mesmo assim assustadoras: Simão exibia escamas de um mosqueado verde-amarelado, e olhos tão serpentinos quanto o de Vanessa acorrentada; Teodoro tinha os braços muito peludos e dentes muito afiados, e estava barbado como não era poucos minutos antes; Marluce exibia olhos azuis, de um azul que não era humano, e garras como as de um gato; enquanto Liziane era de todos a mais assustadora, com a pele viscosa coberta de ventosas, os braços flexíveis como tentáculos.


        E o mais estranho, para mim, era que eu sentia muito medo, mas o medo não me dominava. Era como se eu já estivesse acostumado com aquilo – e com todas aquelas metamorfoses, eu seria o único humano ali no porão… se não fosse a reação que me possuiu: minha pele coçava como se estivesse alérgica a alguma coisa no ar, e aquilo piorou chegando a arder, a queimar; o tempo parecia parar enquanto aqueles animais me rodeavam e eu me aproximava da acorrentada, presa a grilhões de cor muito prateada.


        Então vieram as alucinações – os cheiros muito mais fortes, a umidade do ar parecia mais espessa, e se mexer, reagindo aos movimentos do bando de monstros; haviam zumbidos, silvos e estalos por toda parte; um ruído surdo preenchia minha cabeça… e naquele instante interminável, vi a luminescência, aquele halo hediondo e psicodélico que havia enxergado na lua, na noite em que Vanessa me havia visitado.


        O halo envolvia as correntes de prata que prendiam a moça, monstro, parente, fêmea, consorte, estranha e familiar, favorita e odiada, prostituta e santa, deusa monstro. E eu sabia que as devia tocar: para tocar na pele da minha deusa e amante, devia estraçalhar os grilhões… era a mensagem que me vinha à mente, tão verdadeira quanto o cântico em línguas, declamado por Neemias.


        “É A SUA CHANCE, “bradou Neemias, “PODE SE VINGAR DELA, VOU TER O MAIOR PRAZER DE ASSISTIR, É UMA PUTA TRAIDORA.”


        “BANDO… PORRA NENHUMA!!!” Num só movimento, agarrei as correntes de prata e as puxei, quebrando o pino que as prendia na parede, e sacudi aquele excesso de grilhões sobre o rosto – não, o focinho – de Neemias. Meus músculos pulsavam com uma sensação de poder nunca antes sentida, e punir o pastor só aumentava o prazer daquela sensação de poder. Eu não tinha mais nada a perder na vida, a não ser Vanessa.


        “Como assim ele é imune à prata???” gritou apavorada, aquela coisa cheia de ventosas e tentáculos. Tinha muita razão para estar assustada; eu mesmo me aterrorizava ao perceber que minha pele era agora um couro espesso, cheio de escamas e espinhos, rasgando minha camisa.


        Os três mais fracos estavam como que paralisados frente à cena. A prata, me veio a ideia no fundo da mente. Estilhacei o anel do braço direito de Vanessa, lhe dando mais liberdade de ação e a libertando, também, da dor da prata. Enquanto eu vibrava novamente o emaranhado de correntes na pele do lobisomem – sim, era isto que ele era, sem a menor dúvida, agora – dei tempo suficiente para que Vanessa superasse, um esforço tremendo, a dor e quebrasse o anel de prata do outro pulso. Coisa que nunca mais conseguirá repetir na vida.


        A cabeça animalesca de Neemias estava banhada de sangue e suas feridas eram graves. Ele ainda tentou me atingir com suas garras, mas consegui me esquivar da maioria dos golpes e só um deles me acertou – e o ferimento pouco me atrapalhou, começando a sarar quase que no mesmo instante.


        Aproveitei um momento em que Neemias se contorceu de dor, e o instinto de fuga assumiu: empurrei Vanessa na direção da escada, e corremos. Eles não ousaram nos seguir, os três devem ter tentado cuidar de seu… líder, pastor, o que seja. E que o tal deus amorfo deles se fodesse.


        Quando ultrapassamos a porta que separava o porão do fundo da igreja no nível térreo, consegui ouvir a voz sussurrante de Simão, “É o Dragão… o monstro que devora a lua... estamos acabados…”


        Na câmara onde haviam aqueles divãs todos se encontrava também um grande espelho na parede, como numa sala de dança ou ensaio teatral. E eu me vi. Um monstro reptiliano, de garras malignas empunhando correntes de prata, cheio de escamas e espinhos de cor azulada, a cabeça deformada, draconiana, os olhos de uma cor mortal e prateada.


        As formas de Vanessa começaram a suavizar e seu rosto assumiu as feições femininas que eu conhecia, “Rápido! Não temos tempo pra ficar se olhando no espelho, tio!” Puxou o lençol que cobria um dos sofás e cobriu sua nudez. Minha vontade era de a possuir ali, de novo, como naquela noite, dessa vez, seria tão mais pleno…


        Os olhos de Vanessa se estreitaram e percebi a serpente nela se manifestando, sibilando: “NÃO. AGORA NÃO É O MOMENTO. Vamos sair daqui,” sua voz foi voltando ao normal.


        Naquela noite corremos pelas ruas como dois malucos perdidos num labirinto, depois de ter quebrado uma janela dos fundos da igreja. Em um certo momento paramos e ficamos abraçados como se fôssemos dois indigentes na noite fria e enluarada, marido e mulher, suados e ofegantes, ela muito pior que eu, as minhas roupas rasgadas e ela envolta num cobertor.


        Passou um anônimo na rua, sentiu pena, meteu a mão no bolso e foi tirando umas moedas, dizendo, “Tá precisando de uma pratinha pra alimentar sua esposa, amigão?”


        “Prata?" respondi, finalmente rindo depois de tanto tempo, assustando o transeunte. “Não, pode deixar … já tenho toda a prata que preciso ...” 


        No meu sorriso brilhava a luz da lua; nos meus olhos prateados, a certeza da libertação.