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domingo, 23 de outubro de 2011

FRAGMENTOS E ITERAÇÕES


por Arthur Ferreira Jr.'.




Hello again, friend of a friend, I knew you when
Our common goal was waiting for the world to end
Now that the truth is just a rule that you can bend 
You crack the whip, shapeshift and trick the past again
METRIC, Black Sheep








PRIMEIRA ITERAÇÃO


UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos azuis brilharam no escuro, e a humanidade seguia seu rumo, sem notar a diferença.

Belial corria pela avenida, desfrutando do prazer e euforia das fraquezas humanas. Havia ido embora a desorientação das primeiras noites naquele corpo que se chamava André, e o vampiro, um Vulto Vulpino em busca do paradeiro de outros, havia deixado sua nova consorte, Belin, experimentar suas capacidades vulpinas, brincar.

Enquanto isso se deixava correr à toa, às cegas pela cidade decadente dos humanos. Estava quase se acostumando a ser algo entre humano e a entidade quase-imaterial que antes era. Depois da possessão de André. Belial quase deixava suas presas à mostra e revelava sua natureza através dos olhos azuis brilhantes, de tão fora de controle que corria, sem destino.

Ia correndo pela cidade labiríntica, mas escolhendo deixar suas pegadas pelas avenidas mais largas e cheias de carros, arriscando sua nova vida, embora apenas aparentemente. Os pés se movimentavam cada vez mais rápido, mas ainda dentro dos limites humanos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava as capacidades sobre-humanas de Belial. Passando debaixo de um viaduto, ele sentia suas passadas ganharem novo ritmo. Era cadenciado. Era sincopado. Era insano, aquele ritmo. Cuco, cuco, cuco: como um bater de coração cheio de adrenalina, tonto de dor e prazer. Os olhos de Belial subiram a tempo de enxergar a forma feminina caindo do viaduto. A queda espetacular e rodopiante desafiava as barreiras do próprio tempo, e Belial percebeu que havia seguido as linhas de força certas daquela cidade, chegando no momento exato do chocar de mais um ovo mental, mais uma vampira nascia.

Nascia e morria. Desfigurada, entre a morte e a vida, ela sugou o ar sujo pela primeira vez, pois só agora percebia quem era, quem sempre fora. “Ananke” era o nome que brotava de seus lábios machucados.

Belial e Belin contemplavam a garota quase cega, mutilada, suas medonhas cicatrizes revelando, pouco a pouco, penas afiadas cortando-lhe a carne. Ela era um monstro, mas um monstro útil: Belial a usaria contra Kronos, conseguiria a atenção daquele maldito milenar, e se tornaria o novo Maestro da Morte.



MEIA HORA ANTES…

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma colina específica, onde ela podia se recostar num estranho monumento – um menir, ou outro tipo de pedra ereta – e ler trechos dos vários livros que trazia. O monumento era a razão do tombamento daquela área, tão próxima à vila, mas tão selvagem.

O hábito de ler trechos de livros separados, saltar pedaços como se movida por uma intuição vinda não sabe-se de onde, pouco a pouco fez de Belin alguém capaz de conectar fatos à primeira vista não relacionados… e também de cometer erros quase estúpidos, aos olhos das pessoas de raciocínio mais comum.

Esse raciocínio incomum foi o que trouxe Belin e seu amante – amante? Seu consorte, como ele às vezes a chamava, para aquela cidade grande, suja e labiríntica, cheia de ladeiras, grandes avenidas e viadutos. E agora ela observava da janela escancarada, Belial exercitando-se ao sol. A transformação em Vulto deixara Belin mais pragmática, e ela estava ocupada em escanear os livros que trouxera de sua cidade – aqueles livros de ocultismo que pertenciam a sua mãe, e aqueles livros mais obscuros ainda, que ela conseguiu trazer de Raven Lake além dos portais do paralelo, coisa que nem Belial conseguia fazer. Assim poderia ler os livros com mais conforto pelos lugares onde vagariam no futuro, direto no laptop que roubaram, ou em qualquer outro aparelho ainda menor que roubassem no futuro.

O processo de escaneamento desses livros de Raven Lake era lento e sofrido, porque alguma coisa neles atrapalhava o funcionamento das máquinas eletrônicas, e às vezes, a imagem resultante não era exatamente o que Belin enxergava com seus olhos violetas. Frustrada com mais um fracasso (até então só conseguira escanear um livro completo, e trechos pequenos de cinco outros), a moça – a vampira – contemplava Belial lá embaixo terminar suas séries de abdominais, levantar-se e gritar:

“Desça aqui! Veja se consegue me pegar … ”






UM MÊS E MEIO ANTES …

“O homem não saía de sua mente, tinha certeza de que não era alucinação. O que ele teria feito? O que ele queria dela? Seria um ladrão? Não, definitivamente não podia ser.”

Belin não podia estar mais errada. Agora ela sabia.

Belial era sim, um ladrão. Ladrão de mistérios no estranho lugar de onde veio, ladrão de vidas neste mundo mais sólido onde as escolhas são mais limitadas. Naquele instante, porém, com o sol nascendo por trás das montanhas e seus primeiros raios caindo quentes sobre a pele dos dois amantes na beira do precipício, Belial revelava outra de suas facetas: o de alguém apaixonado (pois se Belial era mesmo um demônio, não são demônios a essência da paixão?).

Os olhos púrpura de Belin arregalavam-se devagar com a chegada do sol, impiedoso e inclemente o sol lhe parecia, mesmo sendo a tênue luz que encerrava a madrugada deliciosa e selvagem que haviam passado. Os dois estavam deitados, seminus e suados e muito próximos da beirada do precipício, e Belin começava lentamente a entrar num estado de pânico que jamais havia sentido antes. Era o sol. Sim, era o sol que estava lhe causando aquilo. Semierguida, ela tentava inutilmente fugir, mas seus músculos um tanto cansados não lhe obedeciam direito. Olhos azuis lhe fitaram preocupados, e a mão de Belial – que um dia Belin conhecera como a mão de André, e que de início Belin pouco teria imaginado percorrendo-lhe todo o corpo como acontecera durante a noite – lhe segurou o ombro com firmeza.

“Calma. Calma. É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique calma. Eu devia ter avisado, meu amor. Venha, recoste-se em meu peito, respire fundo, vai passar se você aceitar que agora é outra pessoa. Sua verdadeira natureza se revelou, não consegue sentir?” A moça agarrou-se a Belial com força, os olhos recusando-se a deixar de olhar o sol nascente.  Belial continuou falando, já que Belin a princípio não conseguia responder nada:

“É só um reflexo. Não é real, pelo menos não aqui em seu mundo. Tenha calma, respire fundo, já disse, o sol NÃO PODE TE FERIR! Sua pele é ainda a mesma, minha querida, sua natureza só mudou por dentro, acha que o poder ia te deixar tão desprotegida durante metade do tempo? Vamos, respire fundo, isso, e com mais calma, perceba que seu corpo não está morto como sua mente quer te enganar… a noite que passamos não prova isso mais do que nunca, Belin?”



SEGUNDA ITERAÇÃO


UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU,  vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos azuis brilharam no escuro, o colapso das realidades, uma explosão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, dor, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade seguia seu rumo, inquieta em seu sonhos despertos, e ávida de sua própria existência.

Belial corria pela avenida principal da cidade labiríntica, e Belin estava quase o alcançando. Ela ria com a brincadeira que testava suas capacidades vulpinas, e os dois quase expunham suas presas, revelando suas naturezas através dos olhos brilhantes, de tão fora de controle que corriam, sem destino. Os carros engarrafados num entroncamento eram perfeitos para que eles se movimentassem cada vez mais rápido e sem perigo, mas ainda dentro dos limites humanos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava as capacidades sobre-humanas do casal de vampiros, mas Belin não temia mais o sol como havia acontecido no seu primeiro alvorecer após a transformação vulpina.

Passando perto de um viaduto, eles ouviram uma ambulância correndo a alta velocidade, desviando-se dos carros que lhe dava passagem, e o ruído da sirene parecia diferente, num ritmo bizarro. Era cadenciado. Era sincopado. Era insano. Cuuuuuuco, cuuuuuuuuco, cuuuuuuuuco… como um bater de coração acelerado, tonto de dor e prazer. Os olhos de Belin e Belial enxergaram a tempo para onde a ambulância se dirigia – uma moça havia se jogado do viaduto.

De repente, Belin estacou e segurou o ombro de Belial – percebeu, e mostrou ao companheiro, que eles haviam seguido as linhas de força daquela cidade, chegando logo após o chocar de mais um ovo mental, mais uma vampira havia nascido. Nascia e morria. Desfigurada, entre a morte e a vida, ela sugou o ar sujo pela primeira vez, pois só agora percebia quem era, quem sempre fora. “Ananke” era o nome que brotava de seus lábios machucados; e mesmo a cinquenta metros de distância, os dois Vultos conseguiram ouvir aquele nome terrível.

Os paramédicos e enfermeiros lhe davam assistência, ela lhes parecia muito ferida, e corria risco de vida. Belial sabia que ela era um monstro, mas um monstro útil: Belial a usaria contra Kronos, conseguiria a atenção daquele maldito milenar, e se tornaria o novo Maestro da Morte. Se havia alguma coisa em que era habilidoso, era nas artes da ilusão: agiu rápido, e os dois conseguiam contemplar a  a garota quase cega, mutilada, suas medonhas cicatrizes revelando, pouco a pouco, penas afiadas cortando-lhe a carne; mas os enfermeiros e paramédicos enxergavam apenas o que queriam ver, aquilo que foram socorrer: uma garota muito ferida, correndo risco de vida.

Ao longe, do lado de um dos poucos orelhões que funcionava de fato naquela cidade, uma figura observava a acidentada, seus socorristas e os dois vampiros, sem ser percebida.





MEIA HORA ANTES…

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma certo precipício, de onde conseguia enxergar, lá embaixo, uma colina onde havia um menir, um monumento antigo feito de pedra, provavelmente ereto ali pelos antigos nativos da terra e que era a razão do tombamento do bosque.

O hábito de ler trechos de livros separados, saltar pedaços como se movida por uma intuição vinda não sabe-se de onde, pouco a pouco fez de Belin alguém capaz de conectar fatos à primeira vista não relacionados… e também de cometer erros quase estúpidos, aos olhos das pessoas de raciocínio mais comum.

Talvez o pior desses erros foi aquele que trouxe Belin e seu amante – amante? Ele a chamava de consorte – para a grande cidade labiríntica, tão suja e cheia de viadutos, avenidas intermináveis, encruzilhadas e ladeiras. Aquela cidade a frustrava, mas os tomos de ocultismo que pertenciam a sua mãe, e mais aqueles livros mais obscuros ainda, que ela conseguiu trazer de Raven Lake além dos portais do paralelo, com a ajuda de Belial, lhe davam indicações soltas que, quando unidas, davam a impressão de que a existência dela, Belin, era algo predestinado, e predestinado a revelar seu maior potencial ali, na cidade grande.

Quase o sonho ingênuo de uma adolescente do interior, e na prática era isso mesmo. Estar ao lado de seu amante vampírico, observá-lo exercitar-se ao sol – seus poderes eram menores durante o dia, mas o sol não os machucava, no máximo incomodava e excitava em certos momentos – e terminar de ajeitar a mochila onde guardava um laptop roubado. Na memória daquele computador, todos os livros de sua antiga biblioteca, mais os tomos arcanos de Raven Lake, escaneados sem maiores problemas. A memória do aparelho parecia sedenta daqueles dados. Com certeza, o computadorzinho estava melhor em suas mãos do que nos daquela mulher na beira da estrada, que pedia carona.

Às vezes Belin se arrependia daquilo, como se arrependia de não ter cortado ainda seus cabelos, que a cada noite a incomodavam mais. Os dois arrependimentos tinham o mesmo peso. Se a mãe de Belin, dona da maioria dos originais daqueles livros, soubesse o que andava pela mente e alma de sua filha (será que ela ainda era filha daquela mulher que morrera há tantos anos?), diria que a balança moral de Belin estava totalmente desequilibrada. Belial responderia que Belin estava agora além da moralidade convencional – às vezes o vampiro parecia propenso a uns discursos prontos, que irritavam um pouquinho Belin, mas era só aquilo que a incomodava, tudo o mais a deliciava e a fazia não pensar em perigos, riscos, mudanças, consequências…

Belial terminou sua série de abdominais, levantou-se e pegou Belin nos braços, que havia acabado de pôr a mochila nas costas, beijando-a profundamente e, depois de morder os lábios da vampira, empurrou-a e gritou:

“Vamos lá! Veja se consegue me pegar…”



UM MÊS E MEIO ANTES …

“Quem poderia ter me seguido?  Quem saberia deste lugar?”

Belin acordou tremendo de frio na beira do precipício, o sol nascendo por trás das montanhas e seus primeiros raios começando a cair quentes sobre a pele dos dois amantes. Primeiro, teve aquela impressão paranoica, vinda de algum sonho ou pesadelo, de que alguém a havia seguido até aquele lugar onde costumava ler, e a surpreendera agarrada com aquele estranho, ambos seminus e suados, saídos de uma madrugada deliciosa e selvagem. Belin começou lentamente a entrar num estado de pânico que nunca havia sentido antes.

Belial a observou intrigado, mas não se mexeu. E para piorar as coisas, o sol. Semierguida, ela tentou fugir do sol e daquela presença que os observava, mas seus músculos um tanto cansados não lhe obedeciam direito. Olhos azuis a fitaram, preocupados, e a mão de Belial, que um dia se chamou André, lhe segurou o ombro com firmeza.

“Calma. Calma. É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique calma. Eu devia ter avisado. Respire fundo, vai passar se você aceitar que agora é outra pessoa. Não é mais humana, mas o sol não consegue te ferir! Sua verdadeira natureza se revelou, será que não percebe?” A moça agarrou-se a Belial com força, os olhos fugindo do sol nascente.  Belial continuou falando, já que Belin a princípio não conseguia responder nada:

“É só um reflexo. Não é real, pelo menos não aqui em seu mundo. Tenha calma, respire fundo, já disse que o sol NÃO PODE TE FERIR! Sua pele é ainda a mesma, minha querida, sua natureza só mudou por dentro, acha que o poder ia te deixar tão desprotegida durante metade do tempo? Vamos, respire fundo, isso, e com mais calma, perceba que seu corpo não está morto como sua mente quer te enganar… a noite que passamos não prov...” Belin o interrompeu e cobriu a boca do vampiro com a mão, sussurrando:

“Calaboca, calaboca… shhh… ela vai nos ouvir.”







FRAGMENTO UM

DIONÍSIO AUTRAN ERA UM HOMEM COMO QUALQUER OUTRO. Um dos poucos defeitos que tinha (mas, espere aí, se era um homem comum, então devia ter muitos defeitos! Mas refiro-me a defeitos assumidos diante dos outros) era ser um fumante inveterado.

Mesmo que lhe pedissem para parar de fumar dentro de casa ou do carro, ele continuava. E foi assim que um dia ele corria pela estrada, fumando enquanto dirigia, sozinho porque sua namorada havia se enchido do fedor de nicotina fortíssimo que impregnava o carro. E para piorar, uma dor de cabeça atroz.

Não sei se um dos outros poucos (poucos?) defeitos de Dionísio Autran era ser azarado – mas com certeza aquilo foi um grande azar: enquanto Kronos, o Imortal Maldito, entrava no matagal à beira da estrada e cavava um buraco buscando o esquecimento desta vida, Dionísio passava de carro e jogava um resto de cigarro aceso justamente sobre a poça de óleo que o carro de Kronos, parado no acostamento, derramava com uma certa urgência.

Um estrondo correu pelo céu, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos esverdeados brilharam no escuro, uma tentativa de possessão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, uma dor de cabeça atroz, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade seguia seu rumo, inquieta em seu sonhos despertos, e ávida de sua própria existência, enquanto mais um ovo de Vulto Vulpino chocava de maneira imprevista, ávida de sua própria existência.

Abrindo a porta da ruína que fora o carro de Dionísio Autran, saiu … apenas Dionísio, pegando fogo, seus olhos esverdeados brilhando mais forte que as chamas da explosão, e junto com a porta do carro abriu-se a porta para o paralelo, expulsando Dionísio, o Andarilho, para uma das autoestradas que corriam por aquela dimensão paralela.

Dionísio sabia que estava ferido, mas também sabia que era um trapaceiro – e sendo filho de Kronos, o Maldito, empurrou seus próprios ferimentos fatais para frente… no próprio tempo… sabendo que tinha que passá-los adiante, gerar mais um Vulto, e esse Vulto que lidasse com as consequências do nascimento dele, Dionísio. Uma cruel aplicação do princípio dos filhos pagando pelo pecado dos pais.

Dentro de si, da mesma forma que em Kronos, ele SABIA que haviam algumas sementes que, invadindo uma alma humana, poderiam brotar como outros Vultos – e Vultos viriam do além da Espiral Sem Nome, tomariam um novo nome e teriam poder, como acontecera agora mesmo com ele. A necessidade – em grego, ananke – sobrepujou Dionísio e tornou-se desejo, desejo de procriar e gerar. Mas havia também o medo de que o Vulto gerado pudesse se voltar contra ele, e buscar vingança.

E, em sua alma de Vulto, veio a imagem de Lívia, cabelos ruivos e encaracolados envolvendo um rosto belo, sensual e angustiado.

Houve um momento em que o desejo superou o medo, mas esse momento foi embora.  E ali, paralisado no meio da autoestrada, Dionísio se perguntava o que fazer.  Como não confundir aquele instante de paralisia com indecisão?  Mas, se havia um traço de personalidade que pouco habitava a alma de Dionísio, era a indecisão.  O que ele sentia, ali parado como se esperasse a chuva despencar sobre seu corpo e alma, era apreensão.  Ansiedade.  A apreensão do conhecimento.  Ele sabia, conhecia, e conhecendo, tinha poder.  Mas esse poder não lhe dava – ironicamente – o direito de fazer o que até há pouco estava desejando fazer.  Certamente, o arrependimento viria, tão certeiro quanto a flecha de um Cupido.




FRAGMENTO DOIS

COMO ELA QUERIA CORTAR O CABELO, deixá-lo curtinho como o da mulher que pedia carona na estrada. Belin lembrava-se perfeitamente do jeito daquela mulher: devia ter uns vinte e oito anos, ainda não podia ter passado dos trinta … cabelos curtos num penteado excitante, de mechas ousadas e arrepiadas, deixando a nuca exposta. E Belin tinha uma bela nuca, ainda mais excitante que a da mulher que ela e Belial roubaram no meio da estrada… o que significava que ficaria ainda mais excitante que sua vítima.

Desejar o que é dos outros – antigamente, Belin teria considerado isso errado. Mas, de qualquer forma, aquela mulher parecia sorrir quando os dois aceleraram o carro levando a mochila do laptop; e imitar um corte de cabelo não era, na verdade, um roubo. Então, tudo bem. Ela podia empurrar quaisquer arrependimentos para a frente… no próprio tempo.

A'arab Zaraq, uma ninhada de Vultos Vulpinos. Depois de escanear todos os livros, os de Raven Lake e os de sua própria mãe, Belin selecionou vários trechos e diagramas que indicavam a grande, suja e labiríntica cidade onde quatro autoestradas convergiam como numa encruzilhada… ali se daria o Princípio das Sombras, o reunir de uma a'arab zaraq. Assim orientavam os tomos de Raven Lake, seus trechos copiados e colados sobre o mapa da área ao redor da grande cidade.

Um dos tomos também falava de Kronos e Nemesyn, do primeiro casal de vampiros; falava como Kronos baniu Nemesyn para a Espiral Sem Limites após uma briga entre os dois; e de como esse ato abriu as portas para todos os outros Vultos Vulpinos, dispostos a vagar pela terra por algum tempo, exultar em suas novas máscaras e depois retornar à Espiral, para mais tarde serem chocados de novo por outros Vultos, repetindo eternamente esse ciclo… tudo enquanto Kronos não conseguia se livrar de seu corpo hospedeiro, um verdadeiro imortal, um verdadeiro imortal maldito.

Não havia nenhuma profecia naqueles tomos que mostrasse como Kronos poderia ser liberto de sua maldição, nem como seu poder imenso poderia ser roubado – mas Belial achava que havia um maneira.

Belin achava que aquela maneira era como andar pelas bordas de um precipício, mas guardava seus medos dentro de si mesma.






FRAGMENTO TRÊS

ENTÃO ERA TUDO VERDADE. O MISTÉRIO. PARTIDO EM DOIS. Uma parte era aquele Mistério realmente roubado de Astarte, ou Shub-Niggurath, ou Ereshkigal, não importa, era a mesma vampira; a outra parte era algo que já fez parte de um outro vampiro – mas não um vampiro como os Vultos, e que não existia na mesma realidade que Belin.

Ridículo, história ridícula. Foi o que ela pensou a princípio.

Tudo que Belin precisava era se livrar dessa história, e ela só conseguia fazer isso – temporariamente – ao se alimentar. Sangue. Emoções. Segredos.

A estrada se estendia até o horizonte, e do horizonte para aquela cidade grande e suja, e Belin sabia que, se seguisse para o lado oposto, encontraria sua pequena cidade, esperando por ela, a casa fechada como nunca esteve antes. Pelo menos até que começassem a investigar o desaparecimento dela, de André e sua mãe Eleonora. Mas ela preferia deixar esses problemas para depois, empurrá-los para o futuro, porque a estrada exercia um fascínio poderoso – talvez mais poderoso que o que Belial exercia sobre ela.

Postos de parada na estrada, como aquele onde ela estava, eram perfeitos para o que ela pretendia: um hotelzinho mixuruca, um posto de gasolina, um bar. Enquanto Belial terminava de escanear os livros no hotel, ela se alimentaria sem maiores problemas.

Não, não no bar. O posto de gasolina era mais adequado: uma loja de conveniência, rapazes parados com seus carros tocando músicas, vindos de uma cidade próxima para farrear e fazer pegas. Porque tinha sempre que cair naquele esteriótipo de mulher fácil e sensual, quando se é uma vampira? Talvez porque seja mais fácil caçar assim. E talvez também porque ela se sentia extremamente sensual ao agir assim. Às vezes, sentia-se mais excitada do que quando estava com Belial.

O rapaz musculoso não estranhou quando ela pediu que eles fosse para trás do posto, após o primeiro beijo. Lá ela a tomou nos braços, e ela sentiu a força de seus braços … e também sentia, quase que automaticamente, que ela podia ser muito mais forte que ele. Aquele rapaz – Luciano era o nome – levara alguns anos para ganhar aquele físico, malhando muito e tomando alguns esteroides, mas não o suficiente para lhe fazer mal à saúde… tudo para ser mais forte que os outros, e atrair a atenção das mulheres. Um menino rejeitado pelas meninas, e perseguido pelos outros garotos, ainda se escondia dentro dele. Mas aquilo que alimentava Belin era sua força de vontade, sua vontade de ser melhor que os outros, mais forte, um exemplar atraente da espécie humana.

Em Belin, aquilo se traduzia no fato puro e simples de que ela era mais forte que ele, apesar de seus músculos não terem crescido – pelo contrário, ela sentia-se, e era, muito mais feminina que minutos atrás, o cheiro de mulher deixava Luciano louco, aquele cheiro vindo do prazer que ela sentia ao nutrir-se dele, e da própria atratividade que Luciano exalava, que era roubada por Belin. Luciano sentia-se fraco diante da vampira – e pensou que aquela mulher era tão linda que o deixava meio com os pneus arriados, não estranhando aquela sensação de fraqueza ao olhar fundo nos seus olhos (eram quase púrpuras, pensou o rapaz) enquanto se beijavam de olhos abertos.

Aproveitando o fascínio idiota do rapaz por ela, ela segurou forte na cintura de Luciano, e exigiu – aquilo ficou claro por sua linguagem corporal, seus movimentos dominantes e lascivos – que ele ficasse quieto para que ela se aproveitasse dele. E, é claro – era inevitável – ele deixou. Ela praticamente rasgava a camisa de Luciano enquanto lambia o pescoço do moço, a língua correndo com cada vez mais força, até que a excitação do drenar fosse tanta em Belin, que todos os seus dentes tornaram-se afiados, mais afiados, prontos para rasgar aquele pescoço.

Ela nunca havia matado ninguém até aquele dia. E sabia que um dia seria necessário – porque então não treinar com aquele rapaz? Foi o pensamento que lhe correu pela mente. Não seria delicioso sorver sua morte? E o que viria com aquela morte? Que coisas poderiam ser drenadas no momento terrível da agonia final? E que quantidade enorme de sangue ela poderia provar … cinco litros de sangue, não era isso que diziam que era a média numa pessoa? A gula, a sede, quase a sobrepujava.

Mas ela não conseguiu – parou de lamber aquele pescoço, soltou o torso de Luciano, e ele olhou espantado para Belin… e mais espantado ficou, quando ela começou a balbuciar, “Vá embora… rápido…” e percebeu que os dentes da garota tão linda que estava pegando eram afiados como os de um animal, não, afiados como as presas de um monstro!

Belin levou a mão aos lábios, instintivamente, ao perceber o terror tomando conta de Luciano – e sabia que agora não tinha jeito. Teria de matá-lo, ou ele poderia dar a língua nos dentes. O moço tentou sair correndo, mas o braço aparentemente delicado, mas terrivelmente forte, de Belin cortou sua fuga. Antes que conseguisse gritar, sua garganta foi dilacerada por presas, sim, por presas afiadas como as de um monstro…

O gorgolejar do sangue em sua garganta, sangue roubado do qual ela não precisava para sobreviver, era tão intenso, tão visceral, que Belin esqueceu qualquer culpa por aquela morte, pelo menos naquele instante. E embora fosse prudente que o moço não fosse drenado até o fim (porque cadáveres exangues chamam bastante atenção!), todos aqueles cobiçados cinco litros foram sugados com força, aquela força também roubada, e quando o cadáver de Luciano desabou no chão, Belial sentia como se tivesse tomado um porre e uma feijoada, tudo na maior pressa do mundo.

A sorte – aquela sorte incomum que sempre protegera Belin e que parecia aumentada desde sua transformação – fez com que ninguém fosse atrás do rapaz naquele momento, nem naquela noite. E a sorte foi grande, porque se poucos aceitariam um monstro em forma feminina, lambendo os lábios correndo sangue, lábios entreabertos exibindo dentes afiadíssimos, e um cadáver recém-assassinado jogado no chão do lado da garota ajoelhada, atrás de um posto de gasolina de beira de estrada, menos pessoas ainda aceitaram em são consciência que o cadáver – aquele óbvio cadáver de garganta dilacerada – sorrisse, começasse a falar e declamar poesia…

E se Belin começava a sentir horror pelo que tinha feito, um horror ainda maior a tomou quando ouviu o que o cadáver dizia, lhe fez perguntas de volta e as respostas – segredos – vinham diretas como os raios do sol… e em meio àquilo tudo, a vampira sentia como se caminhasse pela beira de um precipício…






TERCEIRA ITERAÇÃO

UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, mas os padrões foram interpretados de forma errada, as vozes foram mal ouvidas e o estrondo soou à toa. Dois olhos vermelhos brilharam no escuro, a união de duas realidades, duas explosões, poças de óleo numa pista de carros, dois acidentes, dois homens andando pelo matagal, um homem cavando um buraco de lama, o outro se aproveitando da terra fofa para cavar menos, vários carros achatados largados pela pista, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade desperta no meio de seu sono, levanta para esvaziar a bexiga, e logo volta a dormir apesar da noite tão tempestuosa…

Belin corria pela avenida principal da cidade labiríntica, e Belial estava quase a alcançando. Ela expunha suas presas sem medo, porque ninguém as enxergaria, naquela velocidade com que corria. Nem ninguém enxergaria seus olhos brilhando tão púrpuras, e ela sentia-se fora do controle, mas como quem corre seguindo trilhos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava suas capacidades sobre-humanas, mas Belin acolhia o sol, o calor, a sensação de queimadura na pele, aquela quase-dor, quase-prazer…

Então, aconteceu. Ela corria tão rápido que o tempo parecia parar. O tempo parecia ter um gosto, um sabor, porque ela sentia o sabor do tempo em sua língua e presas. Não era mais o vento que ela cortava em sua corrida: era o tempo e o espaço. Belial ficou para trás e do grande viaduto à frente, caiu uma forma… como uma menina, uma mulher caindo para a morte. Era um vislumbre translúcido… uma possibilidade não-concretizada… e tão necessária. Belin, seguindo um puro instinto, saltou no ar e agarrou aquela forma como se sua vida dependesse disso.

Os olhos da aparição feminina brilharam púrpuras, e Belin sentiu toda aquela energia carregada e acumulada na forma invadir seu corpo, cair por dentro de sua garganta, queimando, e deixando aquele sabor do próprio tempo a penetrar.

Em seus ouvidos, latejava aquela voz que um dia Belin ouvira da boca de uma de suas vítimas mortas: “Eu sou Nemesyn, eu sou Ananke, eu sou Astarte, eu sou Belin, eu sou você e sou o Todo.” A sensação, a descarga orgásmica daquela essência a se reunir a dela, era como da vez em que Belial implantara em Belin uma parte de Astarte – mas bilhões de vezes mais forte. Era cadenciada. Era sincopada.  Era insana, cuco, cuco, cuco… como um coração acelerado, tonto de dor e prazer, que cantava uma canção com seus batimentos.

Mesmo a apenas cinquenta metros de distância, Belial não conseguiu perceber nada – apenas viu Belin se jogar no ar e cair no chão.

A cacofonia nos ouvidos de Belin começou a diminuir, e se esvaiu com uma última frase, “Adormecerei dentro de você, até o momento certo chegar…” Belial estendeu a mão para sua consorte e a ajudou a se levantar, perguntando:  “Que é que aconteceu?”

Mas Belin não conseguia responder.




MEIA HORA ANTES…

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma colina específica, onde ela podia se recostar num estranho monumento – um menir, ou outro tipo de pedra ereta – e ler trechos dos vários livros que trazia. O monumento era a razão do tombamento daquela área, tão próxima à vila, mas tão selvagem. Quase tão selvagem quanto ela.

Aquela intuição selvagem que a tomava quando lia os trechos dos tomos de Raven Lake a assaltou de novo.  Era uma intuição que ela sabia que vinha de certos segredos que ela havia roubado, e de segredos que haviam sido roubados para ela. O poder de Astarte. As palavras de Nemesyn, saídas de um cadáver e numa visão de beira da estrada. Quando ela cometeria um erro? O que diferencia um erro numa tomada de decisões? Só o prazer da vida pode julgar… e ela estava tendo muito prazer.

Lá embaixo, na frente do hotel onde estavam hospedados, Belial se exercitava como se os dois não tivessem acabado de fazer sexo durante seis horas. Belin também não sentia nenhum cansaço, nada que anuviasse sua mente frenética, que quase ia além dos portais do paralelo. As letras dispersas nos trechos dos livros a impressionavam… e em algum momento ela conseguiu novos dados, ao escanear de novo um dos tomos obscuros que resistia bravamente à digitalização. Ali estava, o próprio nome da cidade ou bairro no mudno paralelo: Raven Lake.

As letras se embaralharam diante de Belin e ela enxergou algumas letras a mais…  em vez de RAVEN LAKE, leu CRAVEN CLARKE.

Não havia um bar com esse nome na cidade?

Belin fechou o laptop, desligou o scanner, e resoluta desceu as escadas, gritando para Belial e passando correndo por ele:

“Vamos lá! Veja se consegue me pegar…”



UM MÊS E MEIO ANTES …

“Essa Belin.  Onde está ela?  Não foi ela que sangrou teu lindo pulso, coisa que só eu poderia ter feito?  Ahhh … não me responda.  Só me leve até ela.  Não sei porquê, mas desconfio que ela não é tão fraca como você… e deve estar com aquele que vim buscar, o fugitivo.”

A voz feminina soou em meio aos sonhos de Belin, que acordou assustada, tremendo de frio na beira do precipício, o sol nascendo por trás das montanhas e seus raios começando a cair quentes sobre a pele dos dois amantes – Belin e Belial, ou se esta cena ocorresse um dia antes, Belin e André. Belin começou lentamente a entrar num estado de pânico que nunca havia sentido antes. Levantou-se de súbito, nua na beira do abismo.

“Calma! Calma!” gritou Belial. “É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique cal…” Mas gritar não adiantou muita coisa. Belial era rápido, mas Belin era – para sua surpresa – mais rápida ainda. E sim, ela se jogou do penhasco.

Belial lutou contra as emoções humanas que o tentavam paralisar e presenciar aquela queda sem fazer nada, só entrar em desespero; e correu depressa, dando a volta pela colina, para chegar até o corpo caído de Belin o mais rápido possível. E lá estava ela, o corpo nu lacerado pelas pedras e pelo impacto, levantando-se devagar… bem mais devagar que os ferimentos, que se fechavam numa celeridade inacreditável.

Belial estendeu a mão para sua consorte e a ajudou a se levantar, perguntando:  “Que é que aconteceu?”

Mas Belin não conseguia responder.



FRAGMENTO QUATRO (SUPOSTAMENTE, O FINAL)

“Maldito assassino! Nós vamos te pegar.”

Craven Clarke, um bar à beira da estrada. Belin e Belial esperavam algum sinal, uma movimentação, numa curva da rodovia, a uns duzentos metros daquele bar e boate, onde já haviam estado algumas vezes, preparando o terreno. E lá vinha Dionísio, acelerando num carro negro – provavelmente roubado. Atrás dele, os amigos da moça que ele havia assassinado – corressem as coisas de modo um pouco diferente, e ela se chamaria Ananke; mas agora era apenas Lívia, morta no chão da boate.

Dionísio acelerou e entrou na pista, Caio e Tiago pegaram o carro e começaram a persegui-lo, estavam muito rápidos, de vez em quando precisavam frear bruscamente por causa de algum carro que vinha na pista contrária, logo à frente, numa curva fechada, um caminhão que vinha na outra pista não conseguiu frear a tempo, o carro em que Caio e Tiago estavam rodopiou várias vezes, batendo na traseira do carro de Dionísio, que foi jogado contra uma árvore, logo em seguida o outro carro também bateu na mesma árvore e uma enorme explosão iluminou toda aquela área, na pista o caminhão tombava se arrastando por vários metros, deixando uma imensa mancha de óleo.

Era o sinal que o casal de vampiros esperava.

Dionísio saiu do meio das chamas, sua pele levemente queimada, andou alguns metros no matagal e então encontrou uma enorme poça de lama onde cavou e satisfeito por ter conseguido o que queria, se enterrou profundamente, fechou os olhos num misto de dor e prazer, era hora de descansar, havia muito o que fazer ainda naquela cidade.

Belin e Belial puseram-se parados a poucos metros de onde o acidente havia acontecido, ela olhou para Belial num tom meio desconfiado:

“Você acha que ele percebeu algo?”

“Não creio. Mas só teremos certeza quando chegar a hora certa.”

Dentro do matagal, o silêncio, prestes a ser quebrado. Belin abraçou-se à Belial, sentia-se protegida junto dele, mas tinha medo do que ele era capaz para ter o que queria. E dentro de sua cabeça, ressoavam várias vozes femininas, falando da queda de Kronos, do fim da maldição, e da falha no plano de Belial…

As duas sombras Vulpinas sumiram em meio a uma densa neblina. E se Belial não tomasse cuidado, muito em breve teria muito medo do que Belin também seria capaz…



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

THE CHALLENGE FROM CTHULHU CHICK



And then, from the top of the gambrel, we saw it. That singularly hideous thing, mentioned in the immemorial Pnakotic Manuscripts and the blasphemous Book of Eibon, manifested again, this time as a daemonic iridescence festering at the horizon, which indiscribable stench drove us to an ululating madness in less than one minute. The foetid, amorphous creature was one of the eldritch masks of Nyarlathotep, the decadent and swarthy Messenger from Beyond. From that unnamable veil of macabre effulgence of the Outer, we could feel the abnormal and loathsome influence of Azathoth, Yog-Sothoth and Shub-Niggurath's accursed coupling.
   
    It was something no mortal man could behold; those few who resisted its power and rose from the charnel of their own minds, a nameless and antidiluvian comprehension would struck them like a thunderbolt sent from the gibbous moon. I am now one of those chosen; the others fainted or are dead from their own unutterable self-loathing. Now I am the stygian darkness itself, ruling my own private and shunned hyperdimension, all-seeing in a cyclopean palace at the center of this antique plane, served by the squamous and mutant monsters that, aeons ago, long before the mi-go existed, built the towers of Yuggoth.
   
    Such a pity that my old friends from the Miskatonic Valley have now to deal with my sad, comatose husk. Maybe I visit some night, in dreams, if someone in Kingsport dares again to offer them shelter.


Este texto em inglês foi minha resposta ao desafio emhttp://www.reddit.com/r/Lovecraft/comments/fvtbm/quick_challenge_idea_write_one_lovecraftian/ baseado na contagem de palavras lovecraftianas em http://cthulhuchick.com/wordcount-lovecraft-favorite-words/anunciado aqui pela http://www.facebook.com/cthulhuchick

------------------------------- Minha própria tradução para o português:






E então, do topo do telhado, a enxergamos. Aquela coisa singularmente hedionda, mencionada nos imemoriais Manuscritos Pnakóticos e no blasfemo Livro de Eibon, manifestou-se novamente, desta vez como uma iridescência demoníaca infestando o horizonte, cujo fedor indescritível nos levou a uma loucura ululante, em menos de um minuto. A fétida e amorfa criatura era uma das máscaras místicas de Nyarlathotep, o moreno e decadente Mensageiro do Além. Daquele véu inominável de esplendor macabro do Exterior Cósmico, pudemos sentir a influência anormal e repulsiva do acasalamento de Azathoth, Yog-Sothoth e Shub-Niggurath.

    Era algo que nenhum mortal poderia suportar; os poucos que resistem a seu poder e ascendem da câmara mortuária de suas próprias mentes, estes são atingidos como se por um raio vindo da lua gibosa. Eu agora era um desses escolhidos; os outros desmaiaram, ou morreram de um horror impronunciável de si mesmos. Agora eu sou a própria escuridão estígia, governando minha hiperdimensão privativa e reclusa, onisciente num palácio ciclópico no centro deste antigo plano, servido por monstros escamosos e mutantes que, eras atrás, muito antes dos mi-go existiram, construíram as torres de Yuggoth.

    É uma pena que meus velhos amigos do Vale do Miskatonic tenha agora de lidar com meu triste corpo comatoso. Talvez eu os visite alguma noite, em seus sonhos, se alguém em Kingsport ousar vez dar-lhes abrigo mais uma vez.




quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O PRINCÍPIO DAS SOMBRAS

Por NEITH WAR e THE GREY KNIGHT
The Grey Knight é um pseudônimo/heterônimo de Arthur Ferreira Jr.'.




Nada naquela cidade parecia real, com seus prédios antigos e suas casas rústicas, os habitantes sentiam-se dentro de um filme antigo. A casa de Belin não era diferente, um sobrado com detalhes de flores e ramos por toda a lateral, as grades das enormes janelas faziam desenhos sinuosos que as deixavam ainda mais bonitas. Do alpendre podia-se ver toda uma vasta floresta que sumia no horizonte.

Belin era uma garota de 23 anos, alta de longos cabelos lisos e pretos, vivia sozinha desde os 17 quando perdeu seus pais, gostava de estudar sobre magia e ocultismo e sentia grande afinidade com os animais, mas não era chegada a fazer amizade com as pessoas da cidade.

Sentada na varanda da casa, Belin fazia algumas anotações em seu diário de sonhos, sabia que era importante anotar, e sentia que algo estava para acontecer, o sonho da noite passada havia sido assustador, não entendia o porquê, mas tinha a sensação de que estava sendo vigiada há algum tempo, e isso a incomodava demais.

Caminhando devagar, uma figura se aproximava à distância. Contornava com passos firmes e prudentes a orla da floresta escura próxima à casa de Belin, e os olhos da moça se ergueram de seu diário para tentar identificar quem era que se aproximava: mais um dos seus vizinhos que tentava puxar alguma conversa, sem motivo algum?

Pelo menos dois haviam tentado, nos últimos sete dias. Só que não era o caso: um moço de barba negra, cuidadosamente aparada, óculos pendurados na testa, olhos azul-escuros, se aproximava. Belin não se lembrava de ter visto alguém assim na cidade, nem se parecia com o tipo de homem que vivia naquela cidadezinha: roupas como as de alguém que fosse para a balada numa cidade grande, calça muito negra, camisa vermelha aberta até a metade do peito. Um grande medalhão metálico, de uma cor aparentada ao azul-cobalto, mas ainda mais escura.

E trazia uma sacola na mão, dela tirando algo, ou pelo menos fazendo menção disso. Belin se levantou no alpendre da casa, e o estranho sorriu, a exatos quarenta passos de distância.

Seu coração batia descompassadamente, a respiração estava forte e ofegante, tinha vontade de correr para dentro de casa mas suas pernas não obedeciam. Não conseguia parar de encará-lo, era como se aqueles olhos azuis a tivesse hipnotizado. Um sentimento de pânico tomou conta de sua alma quando de repente uma sombra desajeitada parou bem à sua frente.

– Ei, que cara é essa, viu um fantasma? – André, o intrometido, era assim que Belin chamava aquele chato de 24 anos que parecia não se cansar de chateá-la com sua presença, o vizinho mais insuportável que já tivera, intrometido e sem noção.

Desviou o olhar tentando enxergar o homem que antes via, mas nada viu, simplesmente havia desaparecido: alívio e desapontamento eram os sentimentos que lutavam dentro dela naquele instante. Talvez quisesse a aproximação com o desconhecido, mas agora parecia mais com uma visão criada por sua mente cansada já que não dormira direito na noite anterior.

– O que faz aqui, André? Já não te disse para não invadir meu espaço desta forma? – Belin disse isso enquanto juntava suas coisas e entrava na cozinha.

– Me desculpe, gata, mas é que como você nunca aceita meus convites para sair, sou obrigado a vir aqui, para que você tenha a oportunidade de desfrutar de minha adorável presença – sentou-se numa, cadeira sorrindo.

– Que idiota … – pensou Belin.

– Pois deveria dar a honra a outras garotas que realmente estejam afim – Belin estava cansada, não conseguia parar de pensar no "estranho" rapaz que vira. Pegou uma chaleira e colocou água para ferver.

– Cuidado com o que diz, gatinha, você pode acabar me cansando e me perder, existem muitas garotas que gostariam de ter a sua sorte – André se aproximou e tentou abraçar Belin, que o afastou asperamente.

– Melhor você ir embora, não estou afim de conversar, saia já de minha casa ou … – disse enquanto abria a porta para que André saísse.

– Ou o quê? Olha garota, só vou embora porque tenho um encontro, mas amanhã volto para conversarmos direito – disse isso enquanto saía pela porta.

– Inacreditável … – sussurrou Belin.

Enquanto André se afastava a garota trancou bem a porta a fim de não ter surpresas, afinal podia-se esperar tudo daquele imbecil do André.

A chaleira apitou, e Belin colocou a água fervente numa xícara que já esperava com o sachê de erva cidreira dentro, adoçou e subiu as escadas indo direto para o banheiro. Da janela do cômodo podia-se ver perfeitamente o pôr do sol: quando seus raios passavam pela veneziana formavam um arco-íris na parede que deixava o lugar com cara de mágico, encheu a banheira e enquanto tomava alguns goles de chá foi despindo-se.

O homem não saía de sua mente, tinha certeza de que não era alucinação. O que ele teria feito? O que ele queria dela? Seria um ladrão? Não, definitivamente não podia ser.

Entrou na água morna e encostou a cabeça na borda da banheira onde colocou uma toalha para ficar mais macio. Fechou os olhos, sua respiração estava cada vez mais profunda e pausada, o sol já havia se posto de vez e um ventinho frio soprava vindo da floresta e trazendo um delicioso aroma de eucaliptos. Já estava quase dormindo, gostava de relaxar no banho, era a única hora em que realmente podia descansar de verdade, antes de partir em viagem ao mundo dos sonhos sussurrou para si mesma:

– Aqueles olhos...





Enquanto subia as escadas, uma sombra se esgueirava pela parte de trás da casa. A conversa da garota Belin, pensava a sombra, havia lhe interessado. Como ela conseguira lhe enxergar mais cedo, enquanto rodeava a orla da antiga floresta, também era outra coisa que fez a sombra pensar se, mesmo tendo fugido para aquele fim de mundo, havia alguém que se parecesse com ele, a sombra.

A aproximação do rapaz lhe havia dado a distração necessária para impor sua vontade e sumir do campo de visão da moça. E agora o sombra era só uma sombra mesmo, parcamente visível enquanto penetrava pelas frestas da casa e se aproximava do banheiro onde Belin começava a adormecer...

Dois olhos azuis brilharam na forma sombria, e algo parecido com um sorriso escarlate se desenhou em sua forma vagamente humana.

Belin havia dado uma forma humana a ele, sombra. Ele só podia imaginar que essa forma havia sido tirada dos sonhos dela, e onde mais procurar saber mais sobre a moça, senão nos sonhos dela? Assim que a menina, nua e quase totalmente imersa na banheira, começou a ressonar, suavemente, com ainda mais suavidade, mas uma firmeza incomum, a sombra penetrou nos sonhos de Belin.



Belin encontrava-se no mundo dos sonhos, coberta pela escuridão do cenário que conhecia tão bem. Andava apressada pelas ruas úmidas daquela cidade em ruínas, de vez em quando escutava um grito vindo de algum canto sombrio.

Seguia com passos apressados com medo de estar sendo seguida ou vigiada, ao chegar perto de grandes portões de ferro que davam entrada à uma imensa mansão que mais parecia uma cripta, Belin parou para descansar, olhou sua mãos e percebeu que estavam quase transparentes, murmurou:

– Oh não...não vai dar tempo...

Empurrou com grande dificuldade os imensos portões, e adentrou o gigantesco jardim de flores mortas que tomava toda a frente da mansão. Chegando a porta parou novamente para tomar fôlego, ao olhar para a escura rua percebeu um vulto que a seguia.

Sentiu um gelo no estômago e imediatamente empurrou a porta e entrou. Móveis antigos e empoeirados, quadros estranhos e grossas cortinas deixavam o lugar escuro e com cheiro de mofo.

Subiu correndo as escadas quando percebeu que a porta da frente se abria, correu o mais rápido que pôde e entrou num dos enormes quartos, trancou a porta encostando um pesado criado mudo e se aproximou de um imenso espelho oval que estava próximo à janela coberto por um pano preto.

Barulhos nas escadas fizeram com que seu coração disparasse, tirou o pano e notou que estava ainda mais transparente do que antes.

– Faça dar tempo desta vez … por favor – disse isso enquanto segurava um amuleto que trazia no pescoço.

Uma luz se ascendeu na memória e tudo ao seu redor começou a mudar, alguém forçava a maçaneta tentando empurrar o móvel que segurava a porta, sentiu um gelo no estômago e um sufoco, um clarão e tudo ficou negro como a noite.

Belin se agitou na banheira e acordou assustada quase se afogando, respiração ofegante, tossia muito, estava com medo, poderia ter morrido. Levantou-se rapidamente e saiu do banheiro indo direto para o quarto, trocou-se e ficou encolhida na cama enquanto a cena não parava de se repetir em sua cabeça, apenas uma pergunta sem resposta:

– Quem poderia ter me seguido? Quem saberia deste lugar?

Dormiu sentindo um aperto no coração.



Era uma presença palpável no vácuo, um paradoxo em forma de sombra. Ele era desejo e negação numa só … coisa. Ser. Ou quase um ser, porque estava muito próximo do não-ser.

Só que Belin o havia trazido mais próximo do ser.

E ele estava adorando.

Alguma coisa na moça era similar a ele, não era como se ela fosse uma presa habitual. Era mais como se ela fosse um exemplar de sua raça; mas como, se vivia no mundo da carne? Cada vez mais próximo de uma consistência que Belin chamaria de real, a
sombra decidiu dar um nome a si mesmo. A partir daquele momento, em que a menina se encolhia na cama, tremendo, ele se chamaria Belial.

Era um nome largado nas memórias da menina que começava a ressonar. Não tinha importância seu significado, ou qualquer que fosse o contato ou relevância do nome Belial para Belin. Ele só achou o nome solto nas memórias, avaliou ser parecido
com o nome que a moça dizia ter, e, baseado em seus próprios sentimentos que borbulhavam como uma poça de óleo fervente, decidiu-se num instante.

Belial então aproximou-se mais de Belin. Era estranho: a menina ressonava, e ele sentia a própria respiração ao chegar mais perto dela. O caso é que nunca havia
respirado de fato antes. De alguma forma obscura, Belin havia lhe dado a própria respiração. Talvez por isto estivesse meio sem fôlego agora. Refletindo um pouco, Belial achou que isso significava estar mais próximo de estar vivo.

E, consequentemente, mais fraco.

Era uma bela cama de casal e Belial se sentou ao lado de Belin. Percebeu que seu corpo era agora idêntico ao que Belin devia ter enxergado, na estrada próxima da casa. O quão palpável seria sua própria carne, agora?

Bom, não custava tentar... e tentar era o que Belial tinha feito na maior parte dos milênios que ele achava ter existido.


Abriu os olhos e sentiu um desconforto ao perceber que pela janela escancarada um sol ardente entrava atingindo-a em cheio.

Belin se levantou resmungando, odiava quando esquecia de fechar as cortinas antes de dormir, a claridade da manhã a incomodava mais do que qualquer coisa que conhecia. Foi até o banheiro e lavou o rosto dando uma boa olhada na vermelhidão de seus olhos, isso sempre acontecia quando eram expostos à claridade imediata do sol. Colocou um vestido azul de verão e depois de pentear-se desceu as escadas pensativa, sabia que alguém a havia seguido quando esteve em Raven Lake, a cidade dos sonhos, e de certa forma sentia que poderia ser o mesmo homem que viu na tarde anterior.

Abriu a porta que dava acesso à varanda e espreguiçou-se sentindo o aroma delicado das flores de seu jardim, foi interrompida por um grunhido que a deixou de mau humor na hora.

– Bommm diaaaa gatinha!!

Era André que se aproximava com aquele ar petulante que Belin odiava. Respondeu com má vontade.

– Bom dia … – sentou-se na cadeira e fechou os olhos procurando dentro de sua mente, no meio das lembranças, o rosto do misterioso homem.

– Ihhh, já vi que está de mau humor, o que foi? Está chateada por ontem eu não ter ficado aqui com você?

A pergunta de André foi tão natural que Belin não conseguiu segurar uma gargalhada; que André detestou, por sinal.

– Olha Belin, você pode me considerar um idiota e rir de minha cara, mas saiba que você já está passando da idade e logo vai ficar para titia; afinal pelo que sei você não tem muitos pretendentes, vai ficar sozinha e morrer sozinha e vai se arrepender de me esnobar desta forma.

Belin abriu os olhos e ficou a fitar a floresta no horizonte, sentiu saudades de seus pais, pensou na forma idiota como haviam morrido, acidente de carro...e tudo por culpa de um motorista bêbado. Desde então estava mesmo sozinha, não tinha irmãos, não tinha amigos, não tinha nada, somente André que volta e meia aparecia para provocá-la. Sabia que ele também não tinha tantos encontros como dizia, a mãe dele era uma louca que o tratava como a um bebê, ontem quando ele disse que tinha de ir embora porque teria um encontro Belin sabia muito bem que era porque a mãe de André gostava de assistir a série de TV sentada junto do filho, Dona Eleonora era uma viúva bonita mas dependente do filho, nesse ponto Belin sabia que André era um bom rapaz, nunca deixava a mãe sozinha por muito tempo e era sempre carinhoso com ela, nesse ponto dos pensamentos Belin sorriu e segurou a mão de André.

André espantou-se com a iniciativa de Belin mas ficou calado para não estragar o momento.

Os pensamentos cessaram, Belin mantinha os olhos no horizonte, cenas estranhas passavam diante de seus olhos como se as vissem em um telão, via uma sombra que se aproximava com extrema rapidez, não conseguia se mexer, o corpo estava enrijecido, sem se dar conta começara a apertar com força a mão de André que preocupou-se e chamava pela garota que nada ouvia, estava num outro plano, a sombra bestial se aproximava cada vez mais, Belin cravara as unhas na mãos de André que desesperado chacoalhava a menina pelos ombros, finalmente a sombra chegou bem perto e com seus olhos azuis faiscando sussurrou seu nome "Belial...", que a garota recebeu com um impacto tão forte que quase desmaiou.

Acordou do transe gritando por Belial, seus olhos cintilaram e mudaram para uma cor púrpura voltando ao normal logo depois. Viu a cara de pavor de André que preocupado tentava entender o que estava acontecendo. Belin viu a mão do rapaz sangrando e se sentiu péssima por isso.

– André...me desculpe, eu...

– Ei, gata, não importa, o que houve com você? – o rapaz disfarçava o espanto de ter visto os olhos de Belin transformarem-se.

– Não sei … – Belin parecia se perder novamente em seus pensamentos.

– Acho melhor você entrar, e deitar um pouco, gatinha.

– É … talvez …

– Venha.

André levou a garota até o quarto, deitou-a na cama e fechou as cortinas para que o quarto ficasse na penumbra.

– Eu vou até em casa dar um jeito em minha mão; mas volto logo para ver como você está.

Belin não respondeu, André saiu e então a casa toda pareceu mergulhar numa profunda escuridão. Ao longe negras nuvens anunciavam um temporal, o vento aumentava fazendo com que as janelas produzissem um som fantasmagórico.

Do canto do quarto Belin viu surgir um vulto que se aproximava de sua cama, seu coração disparou, mas não era medo, um sentimento de reencontro, murmurou:

– Belial …

A sombra abraçou Belin e juntos atravessaram os portais do paralelo.


André deixou a porta do quarto de Belin entreaberta, e saiu apressado na direção da rua. Um trovão ribombou lá fora, o que fez o rapaz correr para evitar a tempestade que com certeza iria cair. Se era só o primeiro trovão – todo aquele acidente, ou incidente que resultara em sua mão sangrando podia tê-lo feito ignorar outros sinais de temporal lá fora – dava tempo para chegar em sua própria casa, mas ele precisava ser rápido.

Mal atravessou a soleira da porta e percebeu como havia ficado escuro: as nuvens negras tomavam o céu, praticamente esmagavam o horizonte: por um minuto André ficou espantado, era como se o céu fosse … pesado. Como era possível uma sensação de peso tão forte lhe atingir os olhos??

Talvez estivesse ficando doido, que nem a Belin: ele sabia que ela era meio esquisita, embora fizesse muito o seu tipo, uma gatinha que ainda se mostrava manhosa, mas aquilo havia sido meio exagerado. André voltou a correr mas a tempestade lhe alcançou antes de chegar em casa. O sangue que lhe escorria pela mão se misturava com a água que caía do céu, numa fúria repentina por mais esperada que fosse.

Mas estava perto. Chegou diante da casa de sua mãe, e pouco antes de entrar tomou um susto terrível que o fez estacar no meio da chuva: o trovão rugiu nos céus, e um raio faiscante caiu em cima da casa. Um clarão veio do interior da casa, e apesar do perigo André não chegou a hesitar muito: sua mãe devia estar lá dentro!

Entrou esbaforido, olhando para todos os lados: aparentemente, o para-raios havia contido a força do relâmpago. Mas a casa estava às escuras, ou quase: a eletricidade fora cortada pela tempestade, e várias velas estavam espalhadas pela casa.

… Porquê?, se perguntou André? Ela já estava esperando isto?...

Uma bela e madura mulher acariciava a tela da televisão, seus cabelos muito negros, sem um só fio branco que denunciasse sua idade e fragilidade emocional, se mexiam ao sabor do vento que entrava pela janela escancarada.

André entrou rápido e fechou a janela:

– Mãe? O que é isso tudo? Porque deixou essa janela aberta?

– A previsão do tempo, meu filho André... a previsão!!! – ela respondeu numa voz numa tonalidade um pouco acima do normal, e virou-se para o filho (estava até então de costas). Seus olhos estavam um pouco lacrimejantes, ou era respingo da chuva que vinha lá fora? Ela se aproximou a passos firmes, um tanto diferente do jeito vacilante da Eleonora, sua mãe, que ele conhecia, e segurou o pulso do rapaz, dizendo naquela voz meio alterada:

– Oh, meu filho André. Quem fez isso com você?!?

Ao toque de sua mãe, que lhe deveria ser muito familiar, André levou um pequeno... choque, como duas pessoas desconhecidas que se tocam sem querer pelo cotovelo, no escuro do cinema. A ferida que até então estava limpa pela chuva voltou a sangrar, desta vez mais profusamente que antes.

– Você quer que eu cuide disso, meu filho André? Ou quer que eu cuide de quem fez isso com você?... – Eleonora tomou do braço de André e o aproximou dos próprios lábios, num gesto inesperado. O rapaz teve a impressão de que ela ia esticar a língua da boca já entreaberta e lamber o ferimento que sangrava, mas antes outro relâmpago lá fora iluminou a sala em penumbra e André pôde vislumbrar um fugaz brilho púrpura nos olhos de sua mãe.

Surpreso, André puxou o braço quase que com ferocidade, e por um instante terrível percebeu como a força das mãos de Eleonora era bem maior do que costumava ser, quase ao mesmo tempo em que percebeu que as dezessete chamas das velas espalhadas pelo cômodo não haviam apagado, ou sequer dançado, com a rajada de vento que (não tinha fechado a janela??) penetrou na sala.

Que é que estava acontecendo?




Belin sentiu seu corpo estremecer e parecia pairar no ar, não via nem ouvia nada, um profundo silêncio tomava conta de tudo. De repente um estrondo e Belin viu-se sentada numa cadeira na mansão em Raven Lake.

Olhou ao redor e nada viu, à sua frente o imenso espelho oval estava descoberto, mas não refletia absolutamente nada, apenas um escuro espectral em seu interior, parecia um poço sem fundo.

Tentou se levantar, mas não conseguia se mexer.

– Olá...tem alguém aí? – Belin gritava em vão.

De repente um ruído parecido com o de trovões veio de dentro do espelho, estava cada vez mais perto, o coração da garota começou a acelerar, sentia medo e excitação, sempre quis entrar naquele espelho para saber aonde daria, mas agora estava prestes a ver o que sairia de dentro dele.

As cortinas do aposento começaram a balançar e tudo ao redor parecia em movimento, o som se aproximava e com ele passos pesados. Belin não conseguiu continuar olhando e fechou os olhos apertando os dedos contra o braço da cadeira.

Sentiu quando uma mão firme pousou sobre seu ombro, um arrepio percorreu todo seu corpo e fez com que sua respiração ficasse pesada. Não quis se mexer, teve medo...pela primeira vez teve medo...

– Belin … – com com voz firme o o vulto negro sussurrou próximo à orelha da garota. Ela sentiu aquele hálito quente percorrer seu pescoço e entrar em suas roupas. Afrouxou os dedos tirando uma das mãos do braço da cadeira e pousando-a sobre a mão que estava sob seu ombro, aquele toque parecia feito de energia, uma densa energia que fez o corpo da garota estremecer. Criou coragem e abriu os olhos, ao olhar para o espelho via-se refletida nele, mas nada mais que isso, embora ainda sentisse a mão que segurava. Levantou-se de um salto e virou-se para trás, seus olhos brilharam quando o viu, não pôde descrever a sensação, foi algo tão forte e irreal que não acreditava nos sentimentos que estavam sendo despertos um a um.

Aproximou-se, sabia o nome daquele ser tão lindo que via a sua frente.

– Belial … – seus olhos brilharam uma luz púrpura enquanto tocava o corpo daquele homem que se assemelhava a um demônio que a fascinava de um modo quase doentio.
Abraçou-o enquanto inspirava profundamente, aquele cheiro...era como voltar para casa depois de longos anos viajando por diferentes mundos. Olhou para aquele rosto tão familiar, acariciou-o e sem mais esperar beijou seus lábios.

Tudo ao redor parecia não mais existir, havia um profundo silêncio naquele momento.
As mãos de Belial percorreram o corpo de Belin, explorando-o minuciosamente.
Tiraram suas roupas sem pararem de se beijar, o desejo que se apossou deles naquele momento era tão forte que um precisava desesperadamente do outro.

Seus corpos nus começaram a se refletir naquele espelho negro, já não estavam mais no quarto, estavam dentro do espelho oval, na profunda escuridão. Belial beijava o pescoço da garota, suas mãos tocavam aqueles seios firmes que pediam, enrijecidos, por sua boca. Entregavam-se um ao outro de forma completa e intensa, uma deliciosa sensação de euforia e êxtase, a escuridão estava impregnada de desejos.

Belial deitou a garota no chão e penetrou Belin de forma abrupta, a garota foi levada ao prazer extremo, seus gemidos ecoavam pela escuridão, estava fascinada por aquele Ser demoníaco que a possuía por completo.

Seus corpos unidos eram como mil sóis aquecendo o mundo, uma deliciosa fragrância de sândalo impregnava o ar, eram Dois e eram Um...

Belial prendeu os braços de Belin para cima e continuava mexendo seu corpo num vai e vem frenético, Belin colocou as pernas ao redor da cintura dele e apertou, sentia que poderia morrer naquele momento, nada mais importava, só estar com ele.

Num urro assemelhado à trovões Belial chegou ao seu êxtase no mesmo instante em que Belin também chegou, foi uma explosão de sensações e gozos.

Belin sentiu que não conseguiria mais manter a lucidez e antes que seus olhos se fechassem acariciou uma ultima vez o rosto daquele Ser a quem tanto amava, sim, era este o sentimento, amor...

Quando Belin abriu novamente os olhos estava em sua cama, as cortinas balançavam ferozmente enquanto uma tempestade funesta desabava lá fora.



“E caiu a chuva, e transbordaram os rios, e sopraram os ventos, e se precipitaram sobre aquela casa … e ela caiu … e foi grande a sua ruína.”

A frase veio como um clarão sobre a mente de André, e um calafrio correu por sua espinha como um relâmpago escorrega ligeiro pelo céu. Eram palavras do Sermão da Montanha – mas porque lhe viria a cabeça uma citação bíblica, se ele não era crente nem nada, aliás, nem ele nem sua mãe eram de fato religiosos. E, sendo assim, porque as velas espalhadas pela casa daquele jeito … daquele jeito ritualístico, era a única palavra plausível?

O padrão das dezessete (eram dezessete, exatamente dezessete, e ele contara as velas num só relance, uma percepção quase dolorosa) velas parecia deixá-lo tonto. A mão daquela que um dia fora sua mãe, mas não era mais (outra percepção ainda mais dolorosa: esta lhe marretava a base do crânio e ardia o pulso a sangrar), ainda segurava-lhe o pulso. A luz púrpura nos olhos de … não era mais Eleonora … olhou diretamente para André e ela sorriu, um ar que misturava constrangimento e avidez:

– Mas o que é isso, meu filho André? Me deixe aplacar seu sofrimento … e que aqueles que te feriram assim tenham a dor multiplicada por dez – este modo de falar nunca fora do feitio de Eleonora. Se não estava já em pânico, André teve total certeza de que era prisioneiro absoluto do medo.

 Pare. Pare. Não sei quem é você, o que é você, mas saia de dentro de minha mãe!! – a frase lhe soou ridícula, um clichê, logo após tê-la gritado. Deve ter soado ridículo também aos olhos da invasora, porque esta sorriu de jeito ainda mais perturbador, quase anormal, como se estivesse olhando para um bichinho ou uma criança ignorante, e lhe respondeu:

 Seu bobo. Você é meu filho André, e eu sou sua mãe. Serei sua mãe para todo o sempre a partir de agora, e este meu corpo o prova. Não me olhas e vê tua mãe …? Não foram estes os seios que te amamentaram? … – e puxou a mão de André direto para os seios que eram visíveis em parte pela blusa um tanto desabotoada, em parte pela água da chuva que lhe caíra em cima do tecido branco. O calor do corpo da mãe se misturava a um calor inumano que vinha da entidade que a possuía, e que contrastava muito com a frieza da mão que lhe segurava o pulso. Era como se um coração em chamas pulsasse dentro daquele peito … não, dentro daqueles seios. Era como se os dois seios estivessem em febre, um fogo milímetros abaixo da superfície da pele.

E como costumava fazer o fogo, aquele fogo seduzia. Assim como as labaredas do fogo podem hipnotizar quem as contempla, o calor do fogo também pode excitar e escravizar, e definitivamente era esse o caso do calor que passava daqueles seios duros (André nunca sentira antes os seios da mãe tão duros, não era aquilo que sentia nas vezes que a abraçava) para a mão ferida de André. Atordoado, ele sentiu a sua … nova mãe … soltar-lhe o pulso. E sua mão continuou a tocar-lhe os seios. Ele não se atreveu a tirar, inclusive porque a ferida no pulso começou a cicatrizar, cortesia e bênção daquele calor que emanava dos seios dela.

E, como seria inevitável, a outra mão agarrou-lhe os seios e André voluntariamente beijou os lábios de sua nova mãe. Havia perdido toda consciência do que achava que seria moral, do que seria apropriado – só havia o impulso, a urgência, a necessidade. A comichão que lhe passeava pelas veias. Esqueceu o ferimento que não mais existia. Esqueceu das trovoadas lá fora, do vento que soprava sobre os dois. Esqueceu das dezessete velas... Esqueceu de Belin.

Mas isto, aquela entidade que invadira o corpo de Eleonora não ia deixar. Aquela entidade sem nome, até agora. Seu nome não era Eleonora, e ela tirou seu novo nome da mente de André, o nome vinha borbulhando pelo sangue que ela sugava dos lábios do rapaz. André soube que era escravo, talvez para sempre, de Astarte.

Astarte interrompeu o beijo profundo e sangrento, lambeu devagar os lábios em meio a um gemido de satisfação – eram mais carnudos do que os lábios de sua mãe Eleonora costumava ser, mas André já estava esquecendo de Eleonora – e disse:

-- Essa Belin. Onde está ela? Não foi ela que sangrou teu lindo pulso, coisa que só eu poderia ter feito? Ahhh … não me responda. Só me leve até ela. Não sei porquê, mas desconfio que ela não é tão fraca como você … e deve estar com aquele que vim buscar, o fugitivo. Não que nada disso faça sentido para você, meu lindo fraco – André fitava os olhos púrpuras de Astarte, sem pestanejar e sem responder, porque ela havia mandado não responder – você gosta, não é? Delicia-se em ser fraco enquanto agarra meus seios, não é? … Certo. Você vai ter ainda muito tempo para desfrutar de sua fraqueza junto a este meu novo corpo, mas agora vai sentir prazer é em me obedecer: vamos, me leve até ela e àquele canalha ladrão que eu vislumbrei se escondendo em suas memórias. Você pode ser quase cego, mas eu, não …

André soltou os seios de Astarte e saiu andando, passou pela porta e enfrentou a chuva. Os raios e relâmpagos caíam fortes e o temporal parecia cada vez pior, mas ele e sua nova mãe andaram firmes, como se marchando, na direção da casa de Belin. E é claro, para todos aos outros da cidadezinha, escondidos com medo da tempestade, nada de anormal estava acontecendo.

Nada … Só a tempestade.



Belin levantou-se de um salto, correu até a janela para fechá-la e viu quando André retornava acompanhado … da mãe?

Não acreditou em seus olhos quando a viu, Belin a via, da forma exata como era, seu coração disparou enquanto sussurrava: A Mãe …

Correu pelas escadas quase voando, e fugiu pela porta da cozinha, correu descalça pela relva gélida enquanto os raios cortavam os céus violentamente, mal conseguia enxergar por causa da chuva forte, correu o máximo que conseguiu e adentrou a escura e úmida floresta.

Dentro da casa Belial esperava pela Mãe com um sorriso malicioso nos lábios, do alto da escada olhava firme na direção da porta da frente, ansioso pelo esperado encontro.

Belin tinha os pés feridos, descalça corria sem parar, já nem sabia o porquê da fuga, não conseguia pensar direito, atravessou todo o bosque e parou à beira de um enorme precipício, ficou ali, como uma estátua olhando o nada, como se esperasse alguma ordem, a chuva lavava seu corpo e os trovões que faziam a terra estremecer não lhe causavam um só suspiro.

Seus olhos … os olhos de Belial … Belin e Belial, ela via através de seus olhos, ele via através dos olhos dela, ela ouvia e sentia através de Belial, ele sentia a chuva gelada na pele de Belin, podia ver o precipício podia sentir o cheiro da terra molhada, eles eram Um.


Cada passo daquela dança milimetricamente coreografada, a dança da Realidade movendo-se contra o Vazio. A dança de Belin, Belial, Astarte e até do pobre André, seus movimentos descritos neste conto, eram uma celebração ritual inconsciente, forçosa, obrigatória, que imitava os padrões rítmicos dessa dança primal da Realidade fluindo contra o pano de fundo do Vazio.

Belial sabia algo que Astarte não sabia. Esse algo – uma coisa tão indescritivelmente complexa que se nós, narrador e narradora deste conto, fôssemos passar adiante a vocês leitores, simplesmente os fariam passar o resto de suas vidas mortais lendo esta tortuosa narrativa – era aquilo que Belial roubara, e era aquilo que Astarte queria de volta. Se Belial sabia, Astarte não teria como saber, apenas porque Belial roubara o … Mistério, é melhor chamar esse algo por um nome menos indefinido e que não roube uma lemniscata de palavras nesta história apenas para ser descrito. Se roubara, o dono original não poderia ter mais acesso.

Parece algo tolo, não muito aplicável a um Mistério, algo que pode ser passado adiante sem que quem o pronuncie não o perca, mas era essa a natureza tanto do Mistério quanto das duas entidades que eram Astarte e Belial. Só posso talvez adiantar que esse Mistério tem algo a ver com a dança primal vivida por eles dois, André e Belin. E Belin agora ouvia a música que impulsionava essa dança: a tempestade que trovejava enquanto ela contemplava o precipício à sua frente.

E quando o precipício era assim observado por Belin assombrada e petrificada, André já não mais existia como o conhecemos no começo deste conto. E enquanto Belin corria desesperada pelo bosque, sem compreender a razão de tudo aquilo, uma armadilha era disparada, um corpo era tomado.

A arrogância muitas vezes é apenas o primeiro acorde de um réquiem, um prenúncio de queda: e foi isso que aconteceu com Astarte. Uma série de pequenas decisões erradas, movidas pela arrogância, levou A Mãe a ostentar seu brinquedinho André pelas ruas da cidade, a entrar na casa de Belin com o “filho” a seu lado. A porta estava destrancada, mas mesmo se não estivesse, é possível que Astarte a houvesse derrubado com a força estranha de seus braços, ou mesmo que Belial educadamente tivesse aberto a porta. Ele a esperava, e assim que A Mãe abriu a porta, uma sombra de olhos azuis deslizou ziguezagueante pela escada, sua forma tinha volume e peso devido ao contato com Belin, aquela comunhão fatal; mas também tinha rapidez e poder tremendos, devido ao Mistério roubado.

Outra coisa que Astarte, a Mãe, não sabia, além do Mistério e de seus próprios pequenos erros: o encaixe da comunhão oferecida por Belin com o próprio Mistério que um dia havia lhe pertencido em outro mundo, em outra época. Encaixe que tornou possível a Belial fazer o inesperado: a sombra quase humana, com o brilho azul demoníaco no lugar dos olhos, desceu como um relâmpago do topo da escada para a porta da frente, e garras cortaram a própria Realidade na frente de Astarte, sem tempo para que esta reagisse (já ia pronunciar seu grito de triunfo, era uma pena), tragando a ambos, Belial e Astarte, o Rebelde Sombrio e a Mãe Sombria, para um lugar que estava perigosamente próximo do Vazio: Raven Lake, além dos portais do paralelo.

O que aconteceu lá?

Creio que poderíamos dizer que o que lá aconteceu foi tão inconcebível, tão complexo e indescritível, que ocuparia talvez mais tamanho de texto que o próprio Mistério roubado (pode muito bem ser verdade!). Vocês poderiam também pensar que tivemos simplesmente preguiça de descrever, se quiserem. São livres. Mas o que eu acontece é que no fim das contas o que aconteceu aqui, nesta Realidade, foi mais interessante.

Belin enxergou a forma que um dia havia sido Eleonora, mãe de André, se dissolver nas correntes de energia do paralelo, em Raven Lake, ao mesmo tempo em que seus olhos carnais viam o precipício. Enxergou Belial retirar um fiapo de energia densa da forma-cadáver, e este terminar sua dissolução de vez. O demônio (podemos mesmo chamá-lo assim?) olhou para a frente, e para Belin era como olhar para um espelho, porque Belial a estava admirando com algum sentido desconhecido, uma visão além da visão. O choque, a retroalimentação de sensações que ia além dos cinco sentidos, fez a garota dar cinco passos para trás, veio o medo de cair no abismo.

E no espaço que ela desocupou, o ar tremeu e se distorceu naquela semi-obscuridade (já era noite?...), e logo à beira do abismo, sorrindo, apareceu a figura de André.

Surpresa, e sem questionar porque a ligação entre ela e Belial havia sido cortada, ela gritou:

– André!!! Que está fazendo aqui? Eu não esperava …

– Nem eu esperava, meu amor – respondeu a voz rouca, quente e familiar que Belin sabia não pertencer a André, e Belin foi abraçada com paixão e vigor enquanto a fagulha que Belial roubara de Astarte passava para Belin e nela acendia uma fagulha divina, um poder tremendo, um prazer e uma dor numa só sensação, uma onda desconhecida e ao mesmo tempo tudo que Belin precisava – eu sou o inesperado. E agora, NÓS somos o inesperado …

Os brilhos de dois pares de olhos dominaram então a noite: dois olhos azuis e dois olhos púrpura …