escrito por ARTHUR FERREIRA JR.'.
They'll laugh as they watch us fall
The lucky don't care at all
No chance for fate
It's unnatural selection
I want the truth!
Muse, Unnatural Selection
UMA CELA CHEIA DE MULHERES e Aline continuava não se sentindo bem. Acontecera alguma coisa de madrugada, e ela não sabia muito bem porque fui presa, mas suas roupas estavam rasgadas, sujas de sangue e lhe parecia que quase tivera uma overdose de GARRA, ontem.
Começou a choramingar, "ai, mãe, se eu sair daqui, por favor me leva pra rehab, pelamordedeus ... prometo nunca mais ..." só para ter o desespero interrompido por um chute na boca.
Chute de uma das companheiras de cela, uma loira de calça jeans rasgadas e top laranja, ria descaradamente e batia meio nervosa os pés dentro das enormes botas negras, gritando, "Ahh, calaboca, calaboca, sua filhadaputa patricinha!!! Mas que merda, não se tem nem sossego dentro da cadeia?!?" As outras, mais no fundo da cela, riam junto.
Uma mulata de dreadlocks se agachou perto de Aline, "Tá mal, hein, filha. Que foi que cê aprontou, hein? Tá com o quê subindo na cabeça? É a Belknap-14?" Aquele jeito, mistura de carinho e sarcasmo, irritou Aline ainda mais profundamente que o chute da loira biscate. Não era mais efeito da droga, era uma raiva, uma fúria que consome. Aline olhou, com olhos vermelhos e injetados, direto na alma da presidiária, que se assustou com aquilo, e não teve tempo de reagir quando levou um murro fortissimo, que a empurrou direto pro fundo da cela, em cima das outras presas, alavancando o corpo de Aline para cima e deixando-a em pé, disposta a aguentar qualquer briga.
"Porra é essa, sua biscate!" gritou a loira nervosa, "Só quem bate aqui sou eu!" E partiu pra cima da novata com uma navalha que guardava escondida na bota.
O risco sangrento da navalha cortou o rosto de Aline, mas ela mal sentiu, tão furiosamente indignada se sentia. Revidou com outro murro muito forte, muito mais forte do que a forma física diminuta da garota podia supor. As mulheres do fundo da cela podiam jurar que os músculos da novata começavam a aumentar, seus braços mais definidos e era como se um cheiro de bicho houvesse invadido a carceragem.
A navalha da loira caiu, tinindo, no chão fora da cela, e Aline aproveitou a surpresa para agarrar a cabeça da loira com as duas mãos. Duas unhas afiadas, praticamente garras, de seus polegares, feriam o rosto da loira, já arrebentado pelo murro, um hematoma que quase a deformava. Aline segurou firme e bateu uma, duas, três vezes, a cabeça da loira nas grades, até ouvir um barulho de algo se quebrando.
A novata soltou a rival, o corpo da loira escorregou pelo chão deixando o sangue marcando o metal das grades, se não estivesse morta, estava quase. Aline virou-se para as outras e berrou, mal se controlando: "Se alguém tentar uma gracinha, vai ter o mesmo fim dela! O mesmo!" Aline sentia um instinto irracional também berrando dentro dela, algo que a impelia a avançar para cima das mulheres apavoradas ... e morder uma ou duas delas nessa manobra.
Meio preocupante, mas Aline não tinha tempo de pensar nisso. Só o agora importava.
As companheiras de cela haviam sido domadas, mas logo os guardas viriam checar o que era aquela algazarra, e talvez houvesse um cadáver ali para ser encontrado ... O mundo girava ao redor de Aline e tudo parecia devagar ... e ela sabia que devia reagir, devia esconder o cadáver, não, devia DESFAZER o cadáver, sentia a vida ao redor de si, nas companheiras acuadas no fundo da cela, nos insetos rastejando nas paredes, nos pássaros voando fora da cadeia, em si mesmo essa vida pulsava muito com muito mais força, e sentia a vida se esvaindo da loira ferida, jogada no chão.
Aline sabia que dava para ... ajeitar as coisas ... não por piedade, mas por sobrevivência própria. Se a fuga desse errado, não haveria uma acusação de assassinato ... os instintos irracionais se amoldavam em sua mente consciente e às suas prioridades e planejamentos humanos. Sim, ajeitar as coisas.
A garota se abaixou e seus cachos caíram sobre o rosto da loira. Aline enfiou as garras ainda sujas de sangue nos ombros da moribunda, e as companheira de cela não ousavam se aproximar, impressionadas com a linguagem corporal da agressora. "Vamos, sua puta," sussurrou, quase grunhindo, perto da boca da loira, "acorde pra dizer que só levou uma surra, vamos ..."
A cela se encheu de um cheiro de suor. Uma força atroz e irresistível começou a fluir de Aline, e ela não sabia bem o que estava fazendo, mas sabia que tinha de fazer. A força da vida fluía dela para a loira, que abriu os olhos assustada, acordada de uma inconsciência próxima da morte. O que enxergou foi pouco melhor que a morte: os cachos da novata sobre ela, emoldurando um rosto selvagem, de olhos amarelados, as maçãs do rosto cobertas de pelos castanhos, fundindo-se com as costeletas de Aline, tudo isso realçando de modo terrível e ao mesmo tempo sedutor uma boca carnuda, pingando saliva, e cheia de dentes afiados, liberando um hálito forte, salgado, primal, que a loira sentia entrar dentro de si e curar-lhe as feridas na cabeça.
Não muito bem, é claro. Era um traumatismo craniano e a própria força da vida se impunha para curá-lo, mas sem nenhum refinamento. Aline soltou a loira, que ficou balbuciando encostada nas grades sujas de sangue, e levantou-se com firmeza. Quando se virou para as presas, seu cabelo cacheado rodopiando no ar, as feições bestiais já haviam suavizado e mais uma vez parecia apenas uma garota de dezoito anos, presa por ter feito alguma bobagem na noite.
Os guardas vinham vindo, dava para ouvir os passos no corredor, e Aline conseguiu ainda pensar numa aula de filosofia que teve o ano passado. É incrível como lembranças são irracionais, chegam na hora que querem. Aline se lembrou do Princípio Antrópico; que dizia que o universo havia sido criado para o homem, porque, se as constantes da física mudassem um pouco que fossem, as moléculas orgânicas nunca poderiam ter se formado, e nenhuma humanidade existiria para observar o universo.
E agora, Aline sabia que não era só isso: tudo conspirava para que ela vivesse e se desse bem, observasse a aproveitasse o máximo possível do universo. Ela sentia a própria vida e sabia que a vida não se importava com esses humanos miseráveis, mas sim com ela ... e quem sabe com outros como o que ela havia se transformado pela primeira vez, naquela madrugada anterior. Não havia sido por acaso, a droga só a havia despertado, por dentro ela era forte, sempre soube.
Era a superioridade dos mais fortes. A sobrevivência dos mais aptos.
O Princípio Licantrópico.
ATENÇÃO: este miniconto acontece logo após o conto Ela Só Queria Dançar.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
ELA SÓ QUERIA DANÇAR
Por Lady Mizune e Arthur Ferreira Jr.'.
"NÃO É POSSÍVEL. EU DEVO TAR CHAPADA, mas não tomei nada hoje..."
"NÃO É POSSÍVEL. EU DEVO TAR CHAPADA, mas não tomei nada hoje..."
Os cheiros à volta de Aline se avivaram como chama que recebe combustível novo. Era como uma sinfonia de odores, alguns agradáveis e sedutores, outros terríveis e intoxicantes. A moça já havia experimentado esses sintomas antes, pelo menos duas vezes: era um dos efeitos colaterais daquela droga, uma pílula minúscula, nova no mercado, a chamada Belknap-14. A maioria dos usuários não se referia a ela por esse nome, como aliás acontece com várias drogas por aí: o apelido da nova sensação do momento era a GARRA.
Havia uma boa razão para esse nome, uma garra parecia arranhar a pele do viciado, traçando desenhos invisíveis, às vezes causando prazer, às vezes provocando uma dor excruciante... às vezes ambos. Outros dos efeitos era esse aumento nos sentidos, essa avalanche de informação sensorial que Aline agora sentia, sozinha no beco, a uns três quarteirões da boate.
O suor começou a descer, frio e quente ao mesmo tempo, pela testa e pelo busto de Aline. O que ela não sabia, porque ainda não lhe haviam dito, era que umas poucas pessoas... incluindo ela própria... não ficavam só naquelas alucinações moderadas, naquela larica incrível, naquela sensação de poder, volúpia e glória, viajando em memórias às vezes falsas. Ela iria descobrir isso muito em breve, mas quem iria sofrer com isso não seria ela.
Muito em breve, todas as preocupações de sua vidinha não passariam de merda pisada. E quem pisaria nesse passado, em todas as coisas que um dia lhe foram importantes, seria ela mesma.
Essas ideias subiram da mente inconsciente como um dos cheiros avassaladores que Aline sentia, mas ela ainda não tinha condições de entender nada. Uma pessoa vagava na frente da entrada do beco onde a menina se escondia das colegas. Uma onda de pânico ameaçou surgir, mas não era uma de suas amigas falsas... um desconhecido parecia estar perdido.
A pele de Aline começou a coçar, mas não era algo irritante. Sua boca começou a ficar cheia d'água. Os cheiros do turista perdido... eram... ela tinha que fazer alguma coisa.
Mas ainda assim não se moveu. Alguma coisa a fazia esperar. A coceira continuava, como se os pelos do seu corpo produzissem uma leve eletricidade...
O turista continuava a caminhar. Seu cheiro se dissipava... ela não podia perdê-lo. Não. Decidiu segui-lo. Sombras moviam-se na penumbra ao seu redor. Estava tudo distorcido, Aline caminhava como se estivesse em um filme em stop motion, mas já havia sentido isso antes, iria passar. Ouvia risadas curtas, falas ininteligíveis...
Estava completamente molhada ... Havia chovido? As risadas pararam. Sentia como se algo corroesse suas veias, movesse por debaixo da sua pele. Um arrepio, apesar da confusão de cheiros e cores que não a agradava. Precisava sair dali... Precisava daquele aroma...
Tentou correr da maneira que pôde. mas caiu na calçada. Olhou pra baixo e viu que seu vestido havia mudado de cor. Uma sombra vinha em sua direção. Aline sorria...
… e aquele sorriso de olhos fechados era tão sublime, que o homem na entrada da viela estacou, paralisado, e esqueceu o amigo que ia marchando mais à frente, pela rua principal.
Fernando era um turista de outro continente, que havia sido seduzido pelas histórias daquela cidade labiríntica, mas que agora parecia esquecer todas as minúcias dos alertas de cautela que ouvira, de tão seduzido pela beleza e estranhamento daquela situação: uma menina trêmula, que não devia ter mais de dezoito anos, toda sua pele morena porejando de suor, cabelos levemente encaracolados, um vestido preto apertado, deixando o ombro da moça à mostra; e ela estava tropeçando pelo chão, ao mesmo tempo parecia desesperada e aliviada, seu rosto se voltou na direção de Fernando e aquele sorriso se desenhou, atraente e perturbador.
O turista nem se preocupou em avisar o amigo, que devia estar sumindo numa esquina qualquer, naquele exato momento. Sua sombra se desenhou por sobre o rosto de Aline, Fernando queria de todo coração ajudar, a moça tremia com tanta força que poderia estar passando mal a sério, e quem sabe depois o que ele poderia ganhar em troca? A natureza humana é assim, generosidade e ambição mescladas num só ato imprudente.
Infelizmente para Fernando, aquela moça não estava passando mal, apenas indo além de sua natureza humana, sem que nenhum dos dois se desse conta disso, naquele instante em que ela abriu os olhos e o moço enxergou duas pupilas de um castanho claro lindo. O instante durou pouco.
Os instantes sempre duram pouco, mas aquela cena nunca sairia da memória de Fernando, e pareceu ter durado uma eternidade: os olhos gentis se arregalaram, uma fenda negra vertical se abriu nas pupilas agora avermelhadas da menina. O rosto antes inocente assumiu um semblante bestial, de pelos surgindo dos lados do rosto, como se sempre existissem ali, e o sorriso que era angelical ficou cheio de dentes afiados. A criatura não tremia mais, se lançava sobre ele, e uma mão de garras rubras veio na direção do rosto do turista apavorado, e depois veio a boca, faminta, fatal e violenta.
Aquela mordida no braço. Era demais, a dor de estar sendo devorado vivo, estava tudo entrando num slow motion bizarro, e um torpor analgésico invadiu a alma de Fernando, e enquanto ele sentia seu braço ser roído fora, desmaiou como se forçado a isso por algum veneno misterioso.
Quando alguém o descobriu mais tarde, caído no beco, desacordado, sozinho na madrugada fria, uma laceração sangrenta cortava o rosto do rapaz, e algo muito sádico tinha sido feito a seu antebraço, se é que Fernando podia dizer que tinha mais antebraço. Os moradores daquela parte da cidade ficaram em pânico, e um rumor começou a se espalhar. Quando ele acordasse no hospital, será que conseguiria se lembrar do que aconteceu? Iria contradizer ou confirmar a lenda urbana que nascia e se espalhava como a mancha de sangue que ficou naquele beco?
***
Aline não sabia como fora parar naquele parque. O que teria acontecido? Lembrava-se do som pesado na boate, de estar envolta em trance. Dos traços invisíveis por sua perna. Da sensação de tudo tentar agarrá-la, os suores, as salivas, e do enjoo que a fez sair dali. Lembrava-se de dois vultos e um tremor repentino. Aquelas loucas …
Serrilhava ainda mais os dentes. Lembrava-se de um rosto... Sua boca encheu-se de água... e de um sabor nunca antes provado. Ela não entendia, e ria. RIA! De como se sentia poderosa mesmo estando deplorável, com sua roupa rasgada e sua pele sangrenta. Não queria voltar pra casa. Queria fugir, mas não precisava! Estava tudo ali, em si, ao seu alcance!
Cansada, deitou-se no asfalto sob um céu levemente nublado, quase sem estrelas. O vento úmido e gélido era como um sopro infantil para sua pele em brasa. Descansou assim, por eras e segundos, até as luzes aparecerem. Cobriu os olhos.
Lanternas ziguezagueavam em sua direção. Dois homens, fardados, a indagaram sobre o que fazia ali a aquela hora da noite. Aline apenas respondeu, serena e lânguida:
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